Coleção Galo Branco de literatura contemporânea é lançada na Biblioteca Mário de Andrade

907a66_34f31ca9723f4d2d970162686dfa80a4No próximo dia 2 de dezembro, quarta-feira, a partir das 19h, será lançada na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, a Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, composta por sete títulos inéditos que foram lançados ao longo do ano de 2015 em diversas cidades do interior do estado de São Paulo. A Coleção foi publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC.

Fazem parte da Coleção Galo Branco os seguintes livros: “Espanto”, de Pedro Spigolon com fotografias de Pedro Spagnol; “Espelho d’água”, de Sarah Valle, ilustrado por Natália Gregorini; “Silenciosa Maneira”, de Jefferson Dias; “Pluma e Imensidão”, de Augusto Meneghin; “Azulázio”, de Anderson Kaltner; “As chaves de Buco”, de Danilo Carandina e “Arisca”, de Ana Julia Carvalheiro.

No lançamento na Mário de Andrade a Coleção, com os 7 livros, estará a venda por apenas R$ 30,00.

12250046_661446723958555_6895986306146473008_nNo mesmo dia, também acontecerá o relançamento do livro “Histórias zoófilas e outras atrocidades”, de Wilson Alves-Bezerra, professor de Literatura na UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos), celebrando a parceria com a Editora Urutau. Wilson também fará algumas leituras do seu próximo livro.

Mais informações sobre o evento na página criada no facebook.

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7º canto: ‘Arisca’, de Ana Júlia Carvalheiro

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Ilustração de “Arisca”

Na próxima quinta-feira, 26 de novembro, a partir das 19h, será lançado no Vila Bar, em Barão Geraldo, o sétimo e último livro da Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, publicada pela Editora Medita neste ano de 2015 com recursos do ProAC, o livro “Arisca”, de Ana Júlia Carvalheiro.

Um livro com poemas e pequenos textos que podem muito bem serem vistos como pequenos poemas em prosa, “Arisca” é livro que parece se mostrar arisco desde o início, ele se esquiva, é daqueles que desconfia de si mesmo e do próprio leitor, “Assim, meu poema sempre obscuro, esconde-se mim, dentro da sombra. Obscurecendo o sentido, prolongo a chegada da derrota”.

As manchas da infância se imprimem logo no primeiro poema, cujo título é o mesmo do livro, e fala da infância mal resolvida, e do sorriso das crianças que dormem, “bizarro e bonito”. O aprendizado da escrita, o esforço da forma, estão em momentos como “Aprendi muitas coisas: a respirar, colocando o ar para fora, todo ele, buscando ele fundo debaixo das entrelinhas dos pulmões […] Aprendi a reler o que escrevo, número de vezes necessário para Enfiar, com letra maiúscula, dentro dos poros e saber de cor todos os erros”.

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Ilustração de “Arisca”

Um livro corajoso, que diz, sem indiretas, o que não é a mesma coisa que dizer com facilidade, do feminino, do tempo, da velhice, do corpo, do Outro, do romance entre o peixe de asas de fogo e a Girafa-Bexiga-Cheia de O2 num turbilhão de imagens onde, no dissecamento poético da vida, não há espaço para moralismos baratos, conceitos ingênuos, julgamentos fáceis. “A foda é só uma distração, prazer dolorido que arrecada tesão”.

Mas talvez entre tantas imagens, nenhuma diga mais sobre este livro do que aquela da jaguatirica que se insinua – selvagem – por entre alguns poemas como o belíssimo “Quantos anos”. Em um esforço antropofágico reconhecem-se, fazem-se amigas e fotografam-se no poema a Eu – “coisa concreta de corpo com cabeça”, a fada – “mole e inconsistente” e a jaguatirica – “uma encrenca pequena, lenta e atenta, está ainda olhando para nós”.

“Arisca”, encrenca pequena a olhar para nós, demolindo nossos anos, ilusões, passagens firmes, a constante e certa demolição da gente, começando sempre do nosso lugar de origem, a Casa Branca da poeta é também a Casa Velha de todos nós (quem não possui a sua?), o lugar de onde você sai, que não sai de você, o porquê? Não se sabe, e talvez se trate mesmo de não saber. As jaguatiricas são ariscas, indizíveis, invioláveis, feminino selvagem, sem resposta, sem solução. Ainda bem.

Como escreve a autora em suas notas: “Precisamos nos enxergar mais como um mistério, do que como um problema a ser resolvido”. E coube tão bem a este livro e a mim mesma boiando nele. Tentei tantas vezes resolvê-lo, mas ele não tem solução. […] Meu falso eu, esse ser do eu lírico me permitiu tantas aventuras, tantos casinhos, tantas liberdades que eu não sei se peço um tempo ou se caso logo com ele”.

O lançamento de “Arisca” tem entrada gratuita e é aberto ao público em geral. O livro estará sendo vendido no dia pelo valor de R$10,00. Mais informações no evento criado no Facebook.

imagem 3[…]
A cesta de basquete, o porão, a comida inventada com
jabuticaba
mortadela de madrugada
a galinha-cachorro
a namorada da capital
eu e você
os pelos no rosto
o amor correspondido
a demolição da casa
o terreno baldio
a cidade dorme
o beijo que roubei
os aplausos das crianças da rua
a desculpa do pão
minha descrença, minha culpa
não, foi outra coisa
a demolição da gente.

(p. 40)

Sem título* Ana Júlia Carvalheiro Costa nasceu em 1994, na cidade de Casa Branca, aprendeu que jabuticaba dá em tronco e voçorocas podem engolir cidades. Em 2013 fez algumas tirinhas e textos no jornal do Instituto de Artes da UNICAMP,
Ô,Xavante . Publicou seu Self na edição yoJaguar da revista de poesia e traduções Eu onça. Por enquanto se encontra na cidade de Campinas onde arrisca se tornar entre outras coisas uma Midialoga. ariscagalobranco@gmail.com ou está conectada na rede do Zuckerberg, pelo nome que assina.

Evento discute os desafios das editoras não hegemônicas com lançamento da Coleção Galo Branco

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Na próxima quarta-feira, 25, a partir das 19h, acontece em São Carlos, no Auditório da Educação Especial (Atrás do Departamento de Letras), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), uma mesa de debate que discutirá “Os desafios das editoras não-hegemônicas: da invenção à circulação dos livros” com a participação dos editores Ana Penteado (Ed. Urutau) e Tiago Rendelli (Ed. Urutau) e mediação de Luciana Salazar Salgado (UFSCar).

Serão emitidos certificados aos participantes.

Além do debate, o evento terá também o Lançamento/Sarau da Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, publicada pela Editora Medita neste ano de 2015 com recursos do PROAC. 

Estarão presentes os sete livros que integram a Coleção:

“Espanto”- Pedro Spigolon, fotografias de Pedro Spagnol
“Espelho d’água” – Sarah Valle, Ilustrado por Natália Gregorini
“Silenciosa Maneira” – Jefferson Dias
“Pluma e Imensidão” – Augusto Meneghin
“Azulázio” – Anderson Kaltner
“As chaves de Buco” – Danilo Carandina
“Arisca”, de Ana Julia Carvalheiro

O evento está sendo realizado pelo Fórum de debates & Quartas de bolso. Mais informações no evento criado no facebook. 

6º canto: “As Chaves de Buco”, de Danilo Carandina

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Ilustração de “As Chaves de Buco”

“Um segredo que não posso contar”. Essa é uma das frases de diversas formas repetida por Buco, menino de nove anos, já com responsabilidades, o misterioso personagem do livro “As Chaves de Buco”, de Danilo Carandina, sexto livro lançado pela Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC.

Um livro imerso na Noite Intensa – “A noite intensa também pode ser chamada de madrugada. O que para você é só um horário da meia-noite às 6, para Buco, e para mim também, sinceramente, era o mais absurdo dos montes do céu.” – recortado por buscas que quase sempre não levam a lugar nenhum. Buco está destinado a jamais encontrar o que desde a primeira linha do livro estava procurando. E é justamente na linha que ele havia perdido algo. “A linha é um fio tenso e esticado entre o céu e a terceira árvore do número 26 da Alameda dos Inconscientes”.

As imagens meticulosas na exploração de um vasto mundo entre o imaginário e o fantástico acumulam-se na narrativa que, frequentemente, interpela o leitor e faz aparecer, vez ou outra, a voz que conta a história.

“Árvores morenas”, “de olhos verdes”, suas descrições enxergam todas as coisas como humanas e as trazem nessa perspectiva. No caminho em busca do objeto perdido, Buco se depara, por obra do acaso, com uma porta fechada para a qual ele não tem a chave. “Se você não tem a chave é porque deve refazer o caminho, procurando algo diferente do que o que havia perdido. Não por lógica e nem por sabedoria, Buco acabou simplesmente sabendo disso e refez o caminho mais trinta e seis vezes, procurando a chave”.

Como um livro a ser descoberto, aberto, “história incomum começada e escrita na sombra”, “As Chaves de Buco” lembra um labirinto de portas e corredores que existem e não existem onde se explora pela narrativa literária aquilo que há de melhor no mito: sua liberdade, sua possibilidade inesgotável de mundos outros, aquela “língua das flautas” buscada pelos poetas.

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Ilustração de “As Chaves de Buco”

Agora sim, antes de contar o resto, podemos localizar você, leitor. Buco estava no meio da noite intensa, o que bem pode ser escrito em maiúsculas, se é assim que você entende as coisas. A Noite Intensa é o último sussurro da madrugada, que é o eterno e faminto breu. Se digo que a lanterna de sal de Buco estava nos últimos segundos de atividade, pouco importa o que é uma lanterna de sal, mas sim que Buco, em poucos segundos, ficaria completamente mais ainda no mais escuro e intenso breu da noite. Agora sim, voltando, Buco disse:

– Um segredo que não posso contar.

(p.41)

 

“As Chaves de Buco”, de Danilo Carandina, teve seu primeiro lançamento realizado no dia 14 de novembro, na cidade de Araras, interior de São Paulo. Para aqueles que não puderam ir ao lançamento, o livro já está à venda pela lojinha da Editora Medita.

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    Danilo Carandina (Foto: Pedro Spagnol)

    Danilo Carandina é compositor, escritor e artista plástico nascido em Araras – SP. Lançou seu primeiro EP, com cinco músicas autorais, em 2015, intitulado “Tudo Vai Dar Errado” através do selo Grama Records, do qual faz parte. Trabalhou em alguns álbuns como produtor, arranjador e músico, como “A Blue Waltz” (2014), de Phillip Long, e “Encanto Ao Mar” (2013), de Ciro Bertolucci. Participou da primeira edição da revista euOnça – Editora Medita – com um poema publicado.

Site: http://spamoufraude.tumblr.com/
Facebook: Danilo Carandina

Coleção Galo Branco lança em Campinas livros ‘Azulázio’ e ‘Pluma e Imensidão’

12227186_658966194206608_513311736521677008_nNesta quarta-feira, 11, a partir das 18h, a Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, que está sendo publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC, lança em Campinas os livros de poemas, “Pluma e Imensidão”, de Augusto Meneghin, e “Azulázio”, de Anderson Kaltner.

O lançamento acontecerá na Galeria AT AL 609, localizada no bairro do Cambuí. Os livros estarão sendo vendidos pelo valor de R$ 10,00.

“Pluma e Imensidão’, de Augusto Meneghin, poderia ser visto simplesmente como um livro de poesia, mas, mais do que isso, é um livro de poemas, de imagens, de lugares, que supõe e convida o leitor a saltos, devaneios e toda sorte de imensidões. Segundo livro de Augusto, que já publicou pela mesma Editora Medita o livro de poemas “O Mar sem nós”, “Pluma e Imensidão” traz um primeiro poema, que dá título ao livro, e outros poemas que, mesmo nas suas particularidades e ritmos próprios, tecem juntos uma beleza múltipla. A potência da imagem poética reverbera nas páginas do livro, dando forma a uma poesia plástica que mais do que ser entendida, pretende-se sentida, daí sua intimidade com tudo que é da ordem do corpo e do espaço. Poesia-experiência, poesia-correspondência.

“Azulázio”, de Anderson Kaltner, já sugere desde o título quais seriam seus movimentos principais. “Azulázio” nos faz lembrar de “azul”, “azulejo”, duas palavras que aparecem nos poemas do livro, e talvez de topázio, para lembrar da pedra que aparece em um dos seus belos versos: “Amor é o afago da pedra”. Tanto azul, quanto pedra, são palavras de extenso uso poético. Desde a pedra drummondiana até o azul de Mallarmé, temos a tensão que, de certa forma, se desenvolve neste livro entre o lugar dos devaneios, dos sonhos, da imensidão, do inefável, e a pedra, objeto tão comum, rasteiro, das estradas, do chão, que, no entanto, traz em si também ares de mistério ou de coisa insondada, rara.

Com financiamento do Edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural “Concurso de Apoio a projetos de publicação de livros – Coleção de Obras Inéditas – no Estado de São Paulo”, a Coleção Galo Branco é composta por vários autores, são eles: Pedro Spigolon, Sarah Valle, Augusto Meneghin, Ana Júlia Carvalheiro, Jefferson Dias, Anderson Kaltner e Danilo Carandina. Nesse projeto estão sendo impressos um total de 10.500 livros, divididos em 7 títulos inéditos. Os lançamentos acontecerão até dezembro deste ano em cidades do interior do estado de São Paulo.

O lançamento é aberto ao público em geral e a entrada é gratuita. Mais informações no evento criado no facebook.

um barco feito / do próprio rio / uma correnteza / nele mesmo (Anderson Kaltner, do livro “azulázio”, página 12.)

exceto o pássaro em seu primeiro voo, poucos atravessam uma nuvem em todas as direções (Augusto Meneghin, do livro “Pluma e Imensidão”, página 14)

“Acredito que as coisas e as experiências são furtivas, que o passado e o futuro não existem”

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Uma das colagens que ilustram o livro “Azulázio”

Será lançado amanhã, 5 de novembro, na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo, o quinto livro da coleção Galo Branco de literatura contemporânea, que está sendo publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC, trata-se do livro de poemas “Azulázio”, de Anderson Kaltner.

Na entrevista que se segue, Anderson fala sobre seu livro, sobre a origem do título “Azulázio”, sobre como certas presenças existem em sua obra e se deixam capturar pela sua linguagem poética, e também sobre aquilo que o levou a estudar literatura e filosofia.

A questão do aspecto fugitivo das coisas e experiências, o protagonismo do presente e a compreensão da dimensão do céu como algo que contempla “todo o cosmos e todo o caos, das coisas supremas às futilidades humanóides”, atravessam sua fala espontânea e generosa, uma outra “brisa forte”, como ele mesmo chamou alguns de seus poemas.

Galo Branco: O título do seu livro, “Azulázio”, é uma palavra construída, que não encontramos no dicionário, mas que, mesmo designando uma espécie de objeto desconhecido, parece dialogar com questões importantes em jogo nos poemas. Como foi o processo de criação dessa palavra e o que ela permite dizer sobre o livro?
Anderson Kaltner: A palavra “azulázio” me veio como um acréscimo – bem simples – na palavra azul com o sulfixo ázio que geralmente é usada para minerais, como topázio, por exemplo. Achei uma lista de sulfixos num livro de gramática que estava folheando ao acaso. Descobri que àzio tem um sentido aumentativo, então é como se fosse “azulão”, só que achei essa outra forma mais bonita, rs.
Essa palavra veio a calhar ao invés do antigo nome, que era “azul e quase”, pois se referia, na época, à uma experiência de quase morte por afogamento que eu tinha passado.
Mas como você sugere na pergunta, Maura, também acho que essa palavra desconhecida remete à um objeto um pouco surreal e metafísico, e acho que isso é que tem ligação com os poemas que escrevi, alguns sendo “uma brisa forte”, como canta a MC Carol.

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Uma das colagens que ilustram o livro “Azulázio”

GB: Algumas presenças são fortes no seu livro, entre elas a do sonho, de todo um mundo onírico, ritualístico, do amor que se deixa ver na figura dos amantes, e do próprio mundo interior do sujeito, vastos territórios desconhecidos onde sua linguagem parece se aventurar. Tais presenças, no entanto, parecem já se dar como ausências, elas fogem. Como a sua linguagem ensaiou dar conta dessa instabilidade, dessa fuga das coisas, do próprio real?
Anderson: Essa é uma pergunta complicadíssima, rs, até acho que esse tipo de questões vieram até mim, de alguma maneira, pelas pessoas que me são próximas e que nutro uma admiração enorme. Também isso me levou a estudar filosofia/literatura e também a escrever, tanto como um processo de entendimento do que é a linguagem e tanto como uma fuga de algo que é substancialmente real e que não quis encarar por um tipo de medo de adentrar essas fronteiras mais longínquas. Enfim, é uma pergunta que se desdobra no processo criativo que tive ao longo dos anos para sintetizar nesse livro. Mas sobre a última parte da pergunta: acredito que as coisas e as experiências são extremamente furtivas, que o passado e o futuro não existem, e que sempre é esse presente magnânimo que existe, a ideia de um eterno retorno (de algumas tradições budistas ou de Nietzsche e Krishnamurti) muito me ensinou sobre a contemplação da realidade.

fotoGB: Um dos poemas do seu livro repete em diversas linhas, com letras grandes, a seguinte frase: “ESPELHAREI O CHÃO PARA TER O CÉU EM DOBRO”. Não por acaso, muitas ilustrações que acompanham os seus poemas trazem espaços cósmicos, alguns em lugares improváveis, como na vela de uma embarcação. Quais as dimensões desse céu em sua obra e qual seria, no seu livro, o tipo de relação desse céu com o homem, com as coisas do homem – pequenas e efêmeras – e com a terra?
Anderson: Gosto dessas imagens da natureza cósmica e gosto de brincar misturando-as com uma natureza sintética, criada pelos humanóides. Mas como em nossos tempos esses dois âmbitos são completamente remixados e se juntam numa biotecnologia, quase não nos sobra uma margem para o entendimento da natureza como um todo. De observar, simplesmente. Então nos poemas e depois nas colagens, eu adentro nesses temas que me tocam de algum modo, até inconsciente.
Enfim, respondendo a pergunta mais concretamente, a dimensão do céu, espero que seja todo o cosmos e todo o caos, das coisas supremas às futilidades humanóides; a verdade.

 

corpos, sem lembrança dos leitos em que deitaram,
pelos casos do acaso, da nudez refletida em lua cheia
àquela da qual partilhamos no alvorecer.
espelhos dos rostos que resplandecem.

noite em fuga.

do poema alado (polaroid de Tarkovsky) p. 37

‘Azulázio’, de Anderson Kaltner, será lançado em Sorocaba, interior de SP

12170432_10208083188421346_1361828553_nNo próximo dia 5 de novembro, em Sorocaba, interior de São Paulo, acontece o lançamento do livro de poemas “Azulázio”, de Anderson Kaltner, quinto livro da Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, que está sendo publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC. O lançamento acontece a partir das 18h no Mi Casa Hostel e etc .

Desde o título, o livro de Anderson já sugere quais seriam seus movimentos principais. “Azulázio” nos faz lembrar de “azul”, “azulejo”, duas palavras que aparecem nos poemas do livro, e talvez de topázio, para lembrar da pedra que aparece em um dos seus belos versos: “Amor é o afago da pedra”. Tanto azul, quanto pedra, são palavras de extenso uso poético. Desde a pedra drummondiana até o azul de Mallarmé, temos a tensão que, de certa forma, se desenvolve neste livro entre o lugar dos devaneios, dos sonhos, da imensidão, do inefável, e a pedra, objeto tão comum, rasteiro, das estradas, do chão, que, no entanto, traz em si também ares de mistério ou de coisa insondada, rara.

Anderson Kaltner vive em Campinas, onde faz literatura, toca bateria e estuda filosofia, sem pressa pela malha do tempo. Nos entretempos namora, cozinha com vontade, cuida das ervas do jardim e brinca com gatos. Mantém uma página na internet com seus poemas e colagens.

O livro estará sendo vendido no dia do lançamento pelo valor de R$ 10,00. Mais informações sobre o lançamento no evento criado no facebook. O evento tem entrada gratuita e é aberto a todos.

Com financiamento do Edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural “Concurso de Apoio a projetos de publicação de livros – Coleção de Obras Inéditas – no Estado de São Paulo”, a Coleção Galo Branco é composta por vários autores, são eles: Pedro Spigolon, Sarah Valle, Augusto Meneghin, Ana Júlia Carvalheiro, Jefferson Dias, Anderson Kaltner e Danilo Carandina. Nesse projeto estão sendo impressos um total de 10.500 livros, divididos em 7 títulos inéditos. Os lançamentos acontecerão até dezembro deste ano em cidades do interior do estado de São Paulo.

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retalhos de mares


possibilidades de chuvas
previsibilidades de poças
revolvendo de bruços
as dores do colchão
os dedos na manta
suspiros no chão
sussurros no mantra.
assim, outra vez,
deito em mim mesmo
de bruços de braços
dados um ao outro

Anderson Kaltner,
do livro “Azulázio”, página 9

5º canto: “Azulázio”, de Anderson Kaltner

foto 2O livro “Azulázio”, do poeta Anderson Kaltner, quinto livro que integra a Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC, leva no título uma palavra que não pode ser encontrada no dicionário, não tem um sentido já definido, e surge aqui como uma nova palavra, ou neologismo, como se diz, palavra construção, palavra coisa, que concentra em si outros sentidos.

“Azulázio” nos faz lembrar de “azul”, “azulejo”, duas palavras que aparecem nos poemas do livro, e talvez de topázio, para lembrar da pedra que aparece em um dos belos versos que compõem o livro e diz: “Amor é o afago da pedra”. Tanto azul, quanto pedra, são palavras de extenso uso poético. Desde a pedra drummondiana até o azul de Mallarmé, temos a tensão que, de certa forma, se desenvolve neste livro entre o lugar dos devaneios, dos sonhos, da imensidão, do inefável, e a pedra, objeto tão comum, rasteiro, das estradas, do chão, que, no entanto, traz em si também ares de mistério ou de coisa insondada, rara.

“Azulázio” parece combinar em suas imagens essas duas direções. O sonho é uma grande presença – “que permanece por mais tempo” – ao lado dos vastos mundos interiores com seus revestimentos, seus azulejos, do frenético instante do acordar. O eu dos poemas parece encenar uma separação em relação ao ego, uma distância, o movimento do “despertencer”, insinuando o convite ritualístico ao devaneio.

foto 4Os próprios amantes, presença constante principalmente nos poemas iniciais do livro, se envolvem em mistério, têm os rostos cobertos por panos, imagem de um dos poemas que parece dialogar com o quadro de René Magritte chamado justamente “Os Amantes”, onde se vê duas pessoas de cujos rostos só se percebe os contornos através do pano que os cobre.

São presenças em fuga – “noite em fuga, poltronas em fuga” – que o livro poetiza no seu livre e experimental trabalho com a linguagem. Presenças que são, antes de tudo, não presenças, ou presenças fantasmáticas, que fogem, escapam, se dão como ausência.

Se o livro fala de sonhos, imensidão, também fala de ossos, de corpo, de coisas do cotidiano, de um facebook em decomposição, gifs que cansam, e se constrói com uma linguagem bastante próxima, feita de palavras em português, inglês, palavras inventadas ou não, gírias, modismos, afetações ou naturalidades, talvez no sentido de cumprir com um desejo (esforço) manifesto em um dos poemas: de soar macio.

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E assim ele soa, macio, mesmo quando suas letras e sua forma gritam: “ESPELHAREI O CHÃO PARA TER O CÉU EM DOBRO”. Essa frase, que se repete freneticamente em um poema de traços concretistas, também reverbera e parece estar dita nas imagens/montagens/colagens que acompanham os poemas do livro. Uma delas traz uma embarcação em cujas velas se imprime o espaço cósmico e sua imensidão de estrelas. Em outra, o céu noturno com seus pontos brilhantes aparece ao fundo, em outra ainda há um planeta, sobre o qual se sobrepõe algo como uma mandala, ambos sustentados (aqui cria-se a ilusão própria das montagens e, mais uma vez, própria de Magritte) por uma outra forma circular: (talvez) a de uma vitória régia. E há ainda outro universo, no meio do qual paira solitário uma espécie de cristal.

“Azulázio” nos chega, ao que parece não sem certa intenção, como um objeto desconhecido, mais poético do que místico, pois embora seus poemas busquem esse céu em dobro, no sutil movimento de “fazer das paredes gestos lentos”, eles não pretendem nada mais do que ter o “tamanho de um cigarro”.

emudeceremos caso seja muito cedo ainda para dizer sobre
o nosso desejo de soar macio, de fazer das paredes gestos
lentos. dizemos nos despertencendo, emudeceremos caso seja
amanhã muito cedo ainda para dizer sobre o ontem do nosso
esforço de soar macio, de fazer das paredes gestos lentos.
dizemos nos despertencendo e mais uma vez

(p. 33)

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* Anderson Kaltner vive em Campinas, onde faz literatura, toca bateria e estuda filosofia, sem pressa pela malha do tempo. Nos entretempos namora, cozinha com vontade, cuida das ervas do jardim e brinca com gatos. Mantém uma página na internet com seus poemas e colagens.

Belas imagens para olhar: ‘O Mar sem Nós’, um livro feito de água

800px-View_of_a_kaleidoscopeQuase todas as coisas contêm água e a água contém quase todas as coisas. Os fluídos intermitentes, os movimentos contínuos, o silêncio às vezes tão terrível de um imenso lago parado. O primeiro livro de Augusto Meneghin, “O Mar sem nós”, é um livro de água, feito de água, nos faz lembrar do livro de areia de Borges, condenado à eternidade porque sem começo nem fim, enquanto temos aqui um livro que se debruça sobre “a corrosão inevitável de tudo o que ama”, que se reporta aos ciclos próprios de abandono e à aceitação da morte e do desaparecimento, dizendo justamente em um dos seus versos líquidos: não podemos partir da areia.

“O Mar sem Nós” abre fendas no cotidiano, indo do hábito de ler tantas vezes aquele velho romance, por não possuir outra coisa além de um livro e de um vidro de azeitonas, até a alquimia secreta capaz de fazer ouro com o parafuso da fábrica. Já aqui prepara-se sutilmente o movimento do universo pulsante em suas correspondências, que ganhará mais força no seu segundo livro, “Pluma e Imensidão”, 4º livro a ser lançado pela Coleção Galo Branco, e fala-se de “extensos laboratórios de alquimia adormecidos na floresta emudecida”.

Uma memória do mar e uma fragmentação do corpo insinuam-se em um ritual por vezes muito antigo que aqui torna-se tão presente, falando deste presente, fazendo-se mapa para orientar-se no caos das coisas enigmáticas e efêmeras, seguindo a pista das estrelas e seus desenhos. De tudo o que inevitavelmente passa, restará para ser visto, através do caleidoscópio, o suave beijo.

CAPA“Belas imagens para olhar”, palavras que estão na origem deste nome, caleidoscópio, e também na origem destes poemas feitos do vidro e que contêm água. No efeito agradável do olhar, por entre os vidros multicoloridos, salta sorrateiro o ritual do amor trazendo aos olhos “certos pontos cintilantes, brasas e constelações”.

É o amor, justamente, matéria recorrente neste “O Mar sem Nós”, um amor que escolhe, como posição preferida, o suor e o silêncio. Não seriam talvez também estas as posições preferidas da própria poesia – líquida, fluída, ondulante, feita desta matéria que não se deixa ver, tomar, ou dizer totalmente, sempre escapando para permanecer?

Neste oceano imenso e azul, habitado pela infância (memória insistente), pela quase demencial vívida alegria dos girassóis (lembremos dos girassóis de Van Gogh), “nós e o vento somos os mesmos” na pedregosa travessia de revelar para sempre o que estiver escondido, deixando-o ser visto como o mais visível e sempre presente.

Trata-se da agradável (e sempre perigosa) descoberta de um perfume, de assumir riscos que depois serão os outros e mesmos riscos de imensidão. O mar existe, sem nós, cabe a nós perguntarmos se existimos, sem ele, se existimos sem nós. Talvez encontrar ou, ao menos, sugerir esta resposta, seja tarefa do poeta que, como escreve Gil T. Sousa na apresentação deste livro, “nunca dá um nó que não possa desatar”.

Para aqueles que ainda não conhecem esse primeiro livro de Augusto, “O Mar sem Nós” será relançado no próximo dia 10 de outubro, sábado, no Centro Cultural Leny de Oliveira Zurita, localizado na cidade de Araras, interior de São Paulo, juntamente com o lançamento pela Coleção Galo Branco de literatura contemporânea do livro “Pluma e Imensidão”. É uma oportunidade que o público terá de conhecer e adquirir o primeiro livro do autor, juntamente com a sua obra mais recente.

“O Mar sem Nós” está sendo relançado pela Editora Urutau, responsável pela publicação da revista literária e de artes visuais “euOnça” e que divide sua atuação múltipla entre os seguintes selos: Margem da palavra – textos e traduções acadêmicas, Orangotango – livro infantil, bi gato – zines, HQ e arte gráfica e LOS43! – educação e política. O relançamento é fruto de uma parceria entre a Editora Urutau e a Editora Medita, que publica a coleção Galo Branco e também foi responsável pela publicação da 1ª edição de “O Mar sem Nós”.

Mais informações sobre o lançamento de “Pluma e Imensidão” no evento criado no facebook e também em notícia publicada neste blog.

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Ilustração do livro “Pluma e Imensidão”

Por trás de álamos cinzentos
diz:
devo invocar a noite
para soletrar o insondável
e seguir adiante
quando interditarem as trevas.

desfaz oceanos com os lábios
e parte as cercas com uma sílaba de amora.
(“O Mar sem Nós”, p. 59)

“Um poema só possui a capacidade de modificar a realidade quando lido pela primeira vez”

livro 3 (2)“É sempre na penumbra ou mesmo na sombra que encontro os primeiros impulsos”, diz Augusto Meneghin ao falar sobre o seu segundo livro de poemas “Pluma e Imensidão”, quarto livro da Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, que será lançado no próximo dia 10 de outubro, sábado, a partir das 19h, no Centro Cultural De Araras Leny de Oliveira Zurita.

Na pequena entrevista que segue abaixo, Augusto lembra o inconsciente, os sonhos, e principalmente as imagens ao falar da sua relação com a poesia. O entendimento da poesia como uma presença que se impõe a partir de um estado entre a vigília e o devaneio desdobra-se em uma poética atenta à vivência do mundo interior para a qual nenhuma imagem “é fortuita ou desprovida de profundas significações”.

Se “Pluma e Imensidão” é um caleidoscópio, como diz Augusto, a busca de um encantamento pelas palavras sobrevive em suas páginas, assim como sempre sobrevive a vontade da escrita, vontade da qual o poeta segue ignorando quais seriam as possíveis causas, “justamente porque é uma necessidade e não uma mera profissão ou passatempo amador”.

No continuum da escrita, aos poetas caberia sempre escrever, tantos quantos forem os poemas, capazes de, cada um à sua maneira, modificar a realidade, ainda que seja, como diz o autor de “Pluma e Imensidão” e “Mar sem nós”, apenas quando lidos pela primeira vez.

Galo Branco: Como foi o processo de construção do poema que dá título ao seu livro, “Pluma e Imensidão”? Quais seriam as principais influências, leituras e imagens que se costuram para dar forma a esse poema?

Augusto Meneghin: Pergunto-me inicialmente se a poesia é algo construído, no sentido de um trabalho meramente formal com as palavras. Particularmente, penso que não, embora reconheça a existência de poetas e poetisas que trabalhem sob essa perspectiva. O mero conhecimento das palavras e seus significados não me torna capaz de escrever um poema, da mesma maneira que escrever um poema não significa necessariamente que a poesia tenha ali sua existência. Também não me julgo na posição de determinar o sim e o não do que é uma obra de arte e, portanto, é sempre na penumbra ou mesmo na sombra que encontro os primeiros impulsos. Geralmente isto se dá através de procedimentos que invoquem o inconsciente, ou seja, de processos que lidem com as imagens e todas as implicações que isso possa trazer. Não se trata de gravuras mentais, como entidades fixas, mas de conteúdos dinâmicos que se expressam através das imagens. De certa maneira, poderia fazer uma comparação com os sonhos, pois há semelhanças evidentes. Entretanto, isso seria incompleto, pois o papel da consciência é fundamental quando se trata de materializar os estados interiores. Desse itinerário entre vigília e devaneio, uma presença se impõe e, se seus traços são mais permanentes, se possuem uma característica que se prolongue minimamente através do tempo, então considero que algo relevante surgiu. Neste momento, “fixo” a imagem e, tantas vezes, fui surpreendido com os desdobramentos que ela me apresentou, pois é como se operasse pelo processo inverso: ao invés do significado conduzir a um quadro imagético, são os quadros imagéticos que me conduzem ao significado. A princípio isso poderia ser puro acaso, mas a vivência do mundo interior comprova que quase nenhuma imagem que nos habita é fortuita ou desprovida de profundas significações. Cabe a cada um decidir se integrará isso a sua vida ou se irá considerá-las apenas como espectros sem vida. No caso, o poema Pluma e Imensidão é um caleidoscópio que pode ser lido e, no centro de cada página, um espaço “em branco” que pode ser entendido como um espaço de clarividência. A primeira vez que entendi sobre esse espaço foi através de Radovan Ivšić. Não sei se ele considerava da mesma maneira, pois tive contato apenas com seus poemas. Mas foi assim que o li e que assimilei para a criação deste poema. Uma outra possibilidade é que Pluma e Imensidão correspondam a dois personagens, remetendo ao aspecto de uma realidade mágica em que tudo é animado e que, ao seu modo, comunica-se com os que se dispõem a ouvir e interpretar.

livro 2GB: Tanto o poema “Pluma e Imensidão”, quanto os demais poemas do seu livro exploram um trabalho imagético e plástico do verso, uma musicalidade, afinidades improváveis entre as palavras que aproximam a sua poesia da produção e provocação no leitor de uma espécie de maravilhamento (que, na tradição poética, tanto aproxima a poesia da antiga magia, por exemplo), onde o sentido não tem tanta importância ou tem exatamente a mesma importância que o som da palavra, sua plasticidade, estando um intrincado no outro. Esse “encantamento pelas palavras” estaria no horizonte da sua poética?

Augusto: Certamente. E espero que esse encantamento não apenas pelas palavras possa me acompanhar antes mesmo de qualquer arte ou artifício, pois quase sempre quando as palavras estão no papel é porque algo já nos abandonou e sabemos que nunca mais poderemos retornar. Mesmo assim, escrevemos na esperança tola de que isso não se perca ou que se transmita aos outros. É próximo de Sísifo: subimos e descemos porque estamos condenados. A diferença é que nenhum deus determinou nossa condenação e muitas vezes ignoramos os motivos que nos levam a escrever, justamente porque é uma necessidade e não uma mera profissão ou passatempo amador. Ocorre-me que um poema só possui a capacidade de modificar a realidade quando lido pela primeira vez. Por isso os chamados poetas estão sempre escrevendo, porque a eles nunca é dado ler o próprio poema pela primeira vez.

GB: Há alguma relação, de continuidade, ressonâncias, ou mesmo de ruptura, entre “Pluma e Imensidão” e seu livro anterior, também publicado pela Editora Medita, “Mar sem nós”?

Augusto: Acho que isso conseguirei responder somente quando mais tempo me separar das obras. Ambos os livros possuem muitos elementos que ainda não se tornaram profundamente claros. Aparentemente sempre somos as obras, ou deveríamos ser. Se há ruptura, é porque nós mesmos rompemos algo e isso não significa que a obra tenha perdido seu lugar. Como disse Heráclito: “Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas.”