“Um poema só possui a capacidade de modificar a realidade quando lido pela primeira vez”

livro 3 (2)“É sempre na penumbra ou mesmo na sombra que encontro os primeiros impulsos”, diz Augusto Meneghin ao falar sobre o seu segundo livro de poemas “Pluma e Imensidão”, quarto livro da Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, que será lançado no próximo dia 10 de outubro, sábado, a partir das 19h, no Centro Cultural De Araras Leny de Oliveira Zurita.

Na pequena entrevista que segue abaixo, Augusto lembra o inconsciente, os sonhos, e principalmente as imagens ao falar da sua relação com a poesia. O entendimento da poesia como uma presença que se impõe a partir de um estado entre a vigília e o devaneio desdobra-se em uma poética atenta à vivência do mundo interior para a qual nenhuma imagem “é fortuita ou desprovida de profundas significações”.

Se “Pluma e Imensidão” é um caleidoscópio, como diz Augusto, a busca de um encantamento pelas palavras sobrevive em suas páginas, assim como sempre sobrevive a vontade da escrita, vontade da qual o poeta segue ignorando quais seriam as possíveis causas, “justamente porque é uma necessidade e não uma mera profissão ou passatempo amador”.

No continuum da escrita, aos poetas caberia sempre escrever, tantos quantos forem os poemas, capazes de, cada um à sua maneira, modificar a realidade, ainda que seja, como diz o autor de “Pluma e Imensidão” e “Mar sem nós”, apenas quando lidos pela primeira vez.

Galo Branco: Como foi o processo de construção do poema que dá título ao seu livro, “Pluma e Imensidão”? Quais seriam as principais influências, leituras e imagens que se costuram para dar forma a esse poema?

Augusto Meneghin: Pergunto-me inicialmente se a poesia é algo construído, no sentido de um trabalho meramente formal com as palavras. Particularmente, penso que não, embora reconheça a existência de poetas e poetisas que trabalhem sob essa perspectiva. O mero conhecimento das palavras e seus significados não me torna capaz de escrever um poema, da mesma maneira que escrever um poema não significa necessariamente que a poesia tenha ali sua existência. Também não me julgo na posição de determinar o sim e o não do que é uma obra de arte e, portanto, é sempre na penumbra ou mesmo na sombra que encontro os primeiros impulsos. Geralmente isto se dá através de procedimentos que invoquem o inconsciente, ou seja, de processos que lidem com as imagens e todas as implicações que isso possa trazer. Não se trata de gravuras mentais, como entidades fixas, mas de conteúdos dinâmicos que se expressam através das imagens. De certa maneira, poderia fazer uma comparação com os sonhos, pois há semelhanças evidentes. Entretanto, isso seria incompleto, pois o papel da consciência é fundamental quando se trata de materializar os estados interiores. Desse itinerário entre vigília e devaneio, uma presença se impõe e, se seus traços são mais permanentes, se possuem uma característica que se prolongue minimamente através do tempo, então considero que algo relevante surgiu. Neste momento, “fixo” a imagem e, tantas vezes, fui surpreendido com os desdobramentos que ela me apresentou, pois é como se operasse pelo processo inverso: ao invés do significado conduzir a um quadro imagético, são os quadros imagéticos que me conduzem ao significado. A princípio isso poderia ser puro acaso, mas a vivência do mundo interior comprova que quase nenhuma imagem que nos habita é fortuita ou desprovida de profundas significações. Cabe a cada um decidir se integrará isso a sua vida ou se irá considerá-las apenas como espectros sem vida. No caso, o poema Pluma e Imensidão é um caleidoscópio que pode ser lido e, no centro de cada página, um espaço “em branco” que pode ser entendido como um espaço de clarividência. A primeira vez que entendi sobre esse espaço foi através de Radovan Ivšić. Não sei se ele considerava da mesma maneira, pois tive contato apenas com seus poemas. Mas foi assim que o li e que assimilei para a criação deste poema. Uma outra possibilidade é que Pluma e Imensidão correspondam a dois personagens, remetendo ao aspecto de uma realidade mágica em que tudo é animado e que, ao seu modo, comunica-se com os que se dispõem a ouvir e interpretar.

livro 2GB: Tanto o poema “Pluma e Imensidão”, quanto os demais poemas do seu livro exploram um trabalho imagético e plástico do verso, uma musicalidade, afinidades improváveis entre as palavras que aproximam a sua poesia da produção e provocação no leitor de uma espécie de maravilhamento (que, na tradição poética, tanto aproxima a poesia da antiga magia, por exemplo), onde o sentido não tem tanta importância ou tem exatamente a mesma importância que o som da palavra, sua plasticidade, estando um intrincado no outro. Esse “encantamento pelas palavras” estaria no horizonte da sua poética?

Augusto: Certamente. E espero que esse encantamento não apenas pelas palavras possa me acompanhar antes mesmo de qualquer arte ou artifício, pois quase sempre quando as palavras estão no papel é porque algo já nos abandonou e sabemos que nunca mais poderemos retornar. Mesmo assim, escrevemos na esperança tola de que isso não se perca ou que se transmita aos outros. É próximo de Sísifo: subimos e descemos porque estamos condenados. A diferença é que nenhum deus determinou nossa condenação e muitas vezes ignoramos os motivos que nos levam a escrever, justamente porque é uma necessidade e não uma mera profissão ou passatempo amador. Ocorre-me que um poema só possui a capacidade de modificar a realidade quando lido pela primeira vez. Por isso os chamados poetas estão sempre escrevendo, porque a eles nunca é dado ler o próprio poema pela primeira vez.

GB: Há alguma relação, de continuidade, ressonâncias, ou mesmo de ruptura, entre “Pluma e Imensidão” e seu livro anterior, também publicado pela Editora Medita, “Mar sem nós”?

Augusto: Acho que isso conseguirei responder somente quando mais tempo me separar das obras. Ambos os livros possuem muitos elementos que ainda não se tornaram profundamente claros. Aparentemente sempre somos as obras, ou deveríamos ser. Se há ruptura, é porque nós mesmos rompemos algo e isso não significa que a obra tenha perdido seu lugar. Como disse Heráclito: “Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas.”

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