6º canto: “As Chaves de Buco”, de Danilo Carandina

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Ilustração de “As Chaves de Buco”

“Um segredo que não posso contar”. Essa é uma das frases de diversas formas repetida por Buco, menino de nove anos, já com responsabilidades, o misterioso personagem do livro “As Chaves de Buco”, de Danilo Carandina, sexto livro lançado pela Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC.

Um livro imerso na Noite Intensa – “A noite intensa também pode ser chamada de madrugada. O que para você é só um horário da meia-noite às 6, para Buco, e para mim também, sinceramente, era o mais absurdo dos montes do céu.” – recortado por buscas que quase sempre não levam a lugar nenhum. Buco está destinado a jamais encontrar o que desde a primeira linha do livro estava procurando. E é justamente na linha que ele havia perdido algo. “A linha é um fio tenso e esticado entre o céu e a terceira árvore do número 26 da Alameda dos Inconscientes”.

As imagens meticulosas na exploração de um vasto mundo entre o imaginário e o fantástico acumulam-se na narrativa que, frequentemente, interpela o leitor e faz aparecer, vez ou outra, a voz que conta a história.

“Árvores morenas”, “de olhos verdes”, suas descrições enxergam todas as coisas como humanas e as trazem nessa perspectiva. No caminho em busca do objeto perdido, Buco se depara, por obra do acaso, com uma porta fechada para a qual ele não tem a chave. “Se você não tem a chave é porque deve refazer o caminho, procurando algo diferente do que o que havia perdido. Não por lógica e nem por sabedoria, Buco acabou simplesmente sabendo disso e refez o caminho mais trinta e seis vezes, procurando a chave”.

Como um livro a ser descoberto, aberto, “história incomum começada e escrita na sombra”, “As Chaves de Buco” lembra um labirinto de portas e corredores que existem e não existem onde se explora pela narrativa literária aquilo que há de melhor no mito: sua liberdade, sua possibilidade inesgotável de mundos outros, aquela “língua das flautas” buscada pelos poetas.

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Ilustração de “As Chaves de Buco”

Agora sim, antes de contar o resto, podemos localizar você, leitor. Buco estava no meio da noite intensa, o que bem pode ser escrito em maiúsculas, se é assim que você entende as coisas. A Noite Intensa é o último sussurro da madrugada, que é o eterno e faminto breu. Se digo que a lanterna de sal de Buco estava nos últimos segundos de atividade, pouco importa o que é uma lanterna de sal, mas sim que Buco, em poucos segundos, ficaria completamente mais ainda no mais escuro e intenso breu da noite. Agora sim, voltando, Buco disse:

– Um segredo que não posso contar.

(p.41)

 

“As Chaves de Buco”, de Danilo Carandina, teve seu primeiro lançamento realizado no dia 14 de novembro, na cidade de Araras, interior de São Paulo. Para aqueles que não puderam ir ao lançamento, o livro já está à venda pela lojinha da Editora Medita.

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    Danilo Carandina (Foto: Pedro Spagnol)

    Danilo Carandina é compositor, escritor e artista plástico nascido em Araras – SP. Lançou seu primeiro EP, com cinco músicas autorais, em 2015, intitulado “Tudo Vai Dar Errado” através do selo Grama Records, do qual faz parte. Trabalhou em alguns álbuns como produtor, arranjador e músico, como “A Blue Waltz” (2014), de Phillip Long, e “Encanto Ao Mar” (2013), de Ciro Bertolucci. Participou da primeira edição da revista euOnça – Editora Medita – com um poema publicado.

Site: http://spamoufraude.tumblr.com/
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