‘Essa viagem foi pra mim um renascimento’, diz Natália Gregorini sobre suas ilustrações em ‘O Espelho d’água’

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Canivete de Ka: ilustração de Natália Gregorini para “O Espelho d’água”

“Potencializar a história ainda mais, como disse, é o que um ilustrador tem como missão. Construir uma outra história que só existe por essa união mágica entre a imagem e o texto”, é o que diz Natália Gregorini, artista que fez as ilustrações do livro “O Espelho d’água”, escrito por Sarah Valle e lançado no último sábado, 4 de julho, no Espaço Ideia Coletiva, em Campinas.

Segundo livro da Coleção Galo Branco, que está sendo publicada pela Editora Medita, “O Espelho d’água”, escrito ao longo de sete anos, traz aos olhos do leitor a paisagem do Outro, distante e tão próximo, misterioso e fascinante, e o faz por meio de uma linguagem deslumbrante em sua riqueza de imagens, palavras, viagens, águas, andanças…Linguagem literária que se deixou extravasar nos desenhos feitos por Natália.

Como “janelas que trouxeram respiros nessa aventura tão forte e maravilhosa que é O Espelho d’água”, as ilustrações de Natália, precisas e delicadas, são um capítulo à parte nessa interminável viagem em direção ao outro lado, feito de absurdos, de abismos, e também de encantos e poesia, que é o outro lado de nós mesmos.

Na entrevista que segue abaixo, Natália fala um pouco sobre o processo de construção das suas imagens para “O Espelho d’água”. Ela fala, dentre outras coisas, de uma parceria rara que, encontrando terra fértil, produz objetos artísticos tão abundantes quanto este livro. Tal parceria a permite dizer: “Sinto que com meu olhar, recriei o dela”.

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Lançamento de “O Espelho d’água” no Ideia Coletiva

Coleção Galo Branco: Todo texto literário é feito de imagens, e suscita imagens o tempo todo quando os lemos. Como foi o processo de construção das ilustrações feitas por você para o livro “O Espelho d’Água”? As imagens que se formaram no seu pensamento a partir da leitura converteram-se diretamente em representações no papel ou aconteceram desvios, adaptações?

Natália Gregorini: O Espelho d’água foi um arrebatamento. O li a primeira vez em um momento em que todas as palavras falaram comigo diretamente, me jogaram sem preparação nenhuma pra o mundo criado pela Sarah. As imagens foram surgindo como se vê a paisagem da janela de um trem em movimento, desformes e emocionantes. Fiquei com a sensação mais do que com qualquer imagem, ainda que o livro seja repleto delas. O li então pela segunda vez. As imagens começaram a surgir mais calmas, porém, da imagem que se imagina à que chega ao papel, existe um abismo. A Sarah conhece as ilhas d’água, cada pedaço de terra e de água, como a um lugar onde se viveu a vida inteira e se sabe andar de olhos fechados, então, por mais que as imagens que me surgissem fossem verdadeiras, não seriam as Ilhas d’água. Eu, como ilustradora, desde o princípio dessa viagem, procurei ver aquele mundo entre as linhas descritas pela autora, mas essas linhas estavam já perfeitamente encaixadas, entende? É claro que as imagens criadas por mim são uma interpretação minha deste mundo, porém, quem me apontou para onde olhar, foi a Sarah. O processo foi, então, uma parceria. Conversávamos muito e ela ia me contando de suas imagens e desejos e eu tentava transformá-los em imagens. Sentia que era como se estivéssemos a bordo de Juton, e ela ia me apresentando o seu mundo, e ali, vendo-o, o desenhava. Houve sim adaptações, quando eu desenhava, mostrava a ela se a imagem poderia pertencer às Ilhas d’água, se aquele barco poderia ser o Juton, e, como se lembrasse de uma viagem e de seus elementos, ela me dizia se era ou não o que imaginava. A partir de suas coordenadas, eu criava a imagem. Além disso, tivemos uma adaptação que, a meu ver, transformou a ideia que tínhamos do livro que foi o formato que deveríamos ter nesta coleção. Tínhamos limites como o número de páginas e também que as ilustrações do miolo fossem em PB. A princípio, quando começamos a sonhar o livro, imaginávamos muito mais imagens e todas em cores; quando surgiu esse limite, um outro pensamento e olhar teve de nascer e este foi um processo difícil, porém, que me surpreendeu muito! Olhando para o livro pronto, com poucas imagens e as poucas que lá estão serem muito simbólicas e misteriosas, vejo que a atmosfera da história foi contemplada e aumentada.

CB: Algumas das suas ilustrações no livro trazem objetos – o canivete, os sapatos velhos – outras lugares que nos parecem imensos, perto de bem pequenas embarcações, outras ainda reproduzem algo como uma malha, feita toda de fios entrelaçados, rompidos por um buraco (talvez o manto das Ilhas d’água). Dentre tantas possibilidades de representação da história, como foi o processo de escolha do que ia ser desenhado? Em outras palavras, por que os sapatos, o canivete, as montanhas imensas?

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Lançamento de “O Espelho d’água” no Ideia Coletiva

N: Como eu disse antes, a Sarah conhece cada partezinha deste mundo perfeitamente e, portanto, ela tinha desígnios para cada parte dessa história. A escolha dessas imagens foi dela, eu, novamente, estava a bordo daquele barco olhando pro mundo que ela me mostrava. Conversávamos sempre e foi sempre em completo acordo que decidíamos. Sinto que com meu olhar, recriei o dela.

CB: Como foi a sua viagem, enquanto artista, dentro dessa outra viagem literária – esse mundo do livro de terras distantes, lugares desconhecidos, águas, manto, travessias – para poder traduzi-la de alguma forma que a potencializasse ainda mais?

N: Potencializar a história ainda mais, como disse, é o que um ilustrador tem como missão. Construir uma outra história que só existe por essa união mágica entre a imagem e o texto. Neste caso sinto que a potência se deu de uma forma outra. Não criei algo que não estava ali, apenas mostrei janelas que trouxeram respiros nessa aventura tão forte e maravilhosa que é O Espelho d’água. Essa viagem foi pra mim um renascimento, me transformou e sinto que ela ainda não terminou, ainda há imagens a serem descobertas nessa água toda.

‘Escrever tem um custo. Um espelho d´água é também um desencontro entre metáforas’, diz Sarah Valle

10636914_957138527640447_7282516467813621377_o“Narrar começa como necessidade de distorcer o sentido até distendê-lo fatalmente”, diz a escritora Sarah Valle a propósito do processo de construção do seu livro, “O Espelho d’Água”, ilustrado por Natália Gregorini, que será lançado no próximo sábado, 4, no Espaço Ideia Coletiva, em Campinas.

O ato de narrar parece, de fato, decisivo para este romance de Sarah, não por acaso, toda a história começa com a descrição de uma cena que, ao final, se encerra dizendo: “Aqui é um lugar para se ouvir uma história!”. Como disse Walter Benjamin* a respeito do narrador, a figura deste último se constitui a partir de uma tensão entre aquele que vem de longe e o homem que nunca saiu de seu país, mas conhece muito bem suas histórias e tradições. Aquele que vem de longe, o viajante, transmite aos outros a experiência ditada pela distância espacial, enquanto que o sedentário tem suas histórias constituídas a partir de uma distância temporal. Ambas as distâncias alimentam o senso prático, a sabedoria contida nas histórias, na experiência que jamais se esgota, mesmo que sobre ela passem muitos, muitos anos, amplitude e fecundidade próprias daquilo que evita explicações e se aproxima de certo modo do miraculoso, do mítico.

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Ilustração de Natália Gregorini

Na pequena entrevista que se segue, Sarah fala um pouco sobre “o período de encantamento dos sentidos”, os sete anos em que esteve a escrever essa história, sobre amadurecimentos, sobre o aspecto oracular de algumas cenas, lembra os elementos biográficos que aparecem no romance, como o canivete, o vômito enquanto “terrorismo poético”, e também os simples acasos que foram acontecendo na teia narrativa, alheios à sua consciência ou vontade, ao contrário da estruturação da linguagem em períodos de frases condensadas, produzindo um escoamento do texto da metade para o final do livro.

Sarah fala também sobre os andarilhos, esses personagens essenciais na sua história de viagens, distâncias, de Outros; portadores das histórias que, mesmo silenciadas ou hermeticamente misteriosas, não morrem nunca, ou antes estão sempre se transformando em outras coisas.

Sarah cita a imagem dos hebreus que, depois de terem saído do Egito, vagam quarenta anos pelo deserto sem que seus sapatos se gastem. São dessa natureza as histórias como a desse romance “O Espelho d’Água”, feita de acasos e outras histórias, lendas, mitos. Em uma associação com o que diz Benjamin, “ela se assemelha a essas sementes de trigo que durante milhares de anos ficaram fechadas hermeticamente nas câmaras das pirâmides e que conservam até hoje suas forças germinativas”.

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Ilustração de Natália Gregorini

Galo Branco: Seu livro “O Espelho d’Água” foi escrito ao longo de sete anos. Como foi o processo de construção da obra ao longo desse tempo e o que ela mobilizou, em termos de tempo, espaço, estudo e mesmo experiências pessoais para ser realizada?

Sarah Valle: Com “sete anos” refiro-me ao período de encantamento dos sentidos, em que um universo é gerado como um duplo do homem. A última versão escrevi entre janeiro e julho de 2013, é tradução de outras. Narrar começa como necessidade de distorcer o sentido até distendê-lo fatalmente. Representar para afirmar, para romper. Inconsciente vindo para a consciência. Eu não havia notado o aspecto de útero do manto, era criança. Da última vez, já sabia o que estava em questão nas escolhas do enredo, mas, de início, algumas cenas prenunciaram acontecimentos, como oráculos. Foi um enlaçamento de linguagem, um jeito de apropriar-me de um real difícil, de atingir um Outro.

GB: A arquitetura imagética do seu livro é toda ela muito específica, o romance descreve em detalhes a paisagem, por exemplo, das Ilhas d’Água, seus habitantes, a presença decisiva do manto. Quais os elementos ou mesmo as referências que te ajudaram a dar forma a esse mundo desconhecido, a esse Outro?

SV: Há elementos literalmente biográficos: o canivete, o corte da mão, o vômito enquanto “terrorismo poético”, Nô Bet é trocadilho para Bento – ETE Bento Quirino etc.. Eu diria que a parte azul (as conchas são as preces da água) tem 15 anos, a verde (de pirata a andarilho), 16 e a vermelha (em busca do miraculoso), 17. Há também acasos: Io é o nome de um deus polinésio. Não me recordo de sabê-lo antes. A Polinésia sempre esteve presente, não sei porquê. O manto, útero, pode ser lido como espécie de caverna platônica. A estrutura de interpretação é mítica. Há também uma preocupação com frases condensadas. Uma tensão na linguagem de quem não pode dizer muito. O texto se acelera muito da metade para o final, como uma ampulheta.

GB: Uma das figuras fundamentais do seu livro é a do andarilho, a quem você dedica a história logo no início, antes dela começar a ser contada. Por quê o andarilho e, em que medida, ele ajuda a entender o que de fato está em questão em “O Espelho d’Água”?

SV: Na saída do Egito, os hebreus vagam quarenta anos pelo deserto sem que seus sapatos se gastem. Cada andarilho relaciona-se apaixonadamente com Io, que precisa ser posto no espelho, ultrapassado. Há certa alegoria com um anarco-cristianismo. Térea, torre de Babel no perímetro de Deus, devaneio de exílio, órfã estranhamente familiar, diz um “sim” nietzschiano a partir de seu niilismo. Escrever tem um custo. Um espelho d´água é também um desencontro entre metáforas. Uma vez que algo é amado, é amado para sempre. Assim o quisemos. Assim havemos de querê-lo. Mas nosso amor é amoral. Os andarilhos são os que se deparam com lugares muito ermos da própria consciência, os que amaram demais com incerteza, os que escolheram a terra, que procuram e já não encontram razões atrás das estrelas para se sacrificarem, que dedicaram muito tempo a uma interpretação de mundo até destruí-la.

*BENJAMIN, Walter. “O Narrador” in: Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas Vol. 1. São Paulo: Editora Brasiliense, 1993

‘O Espelho d’Água’ estará à venda na lojinha da Editora Medita e será lançado com música e leitura coletiva

10421352_616806211755940_3779550329576756707_nAndarilhos, amantes de terras distantes, paisagens novas e desconhecidas, ou simplesmente os andarilhos das letras, que tanto viajam com os olhos debruçados sobre elas, estão convidados para o lançamento do segundo livro da Coleção de obras inéditas Galo Branco, que está sendo publicada pela Editora Medita.

Trata-se do livro “O Espelho d’Água”, de Sarah Valle, com ilustrações de Natália Gregorini. O lançamento acontece no dia 4 de julho, sábado, a partir das 19h, no Espaço Ideia Coletiva, no centro de Campinas.

Além da presença da autora e ilustradora, o lançamento terá uma programação variada de atrações artísticas. A partir das 19h, acontece uma apresentação com o músico Leon Spiandorelli, acompanhado de sua harpa “Vitória”. Leon iniciou seus estudos de harpa em março de 2012, no Conservatório de Tatuí. Como já possuía conhecimentos musicais provindos do estudo de piano erudito, o desenvolvimento no estudo e prática musical da harpa foi acelerado.

1798065_1409474009305198_1250063654_nPresente em praticamente toda a história da humanidade, a harpa é um dos instrumentos musicais mais antigos de que se tem conhecimento, observada até mesmo em desenhos na tumba do Faraó Ramses III. Seu timbre, por mais suave e angelical que seja, é capaz de exprimir as mais variadas emoções, de calmaria a tempestade. Além disso, é um instrumento harmônico: suas cordas vibram independentemente, permitindo ao músico executar pequenos detalhes da música, além de sua melodia e acompanhamento. O músico utiliza em suas apresentações uma harpa céltica, carinhosamente nomeada de Vitória por sua dona anterior, nomeação que ele decidiu manter.

11377234_1597005447255510_4056898432872527957_nA partir das 20h, o público poderá assistir a outra apresentação musical com o poeta e músico Augusto Meneghin que, acompanhado de violão e belas letras, traz uma melodia delicada e poeticamente construída. Augusto será o próximo autor a ter um livro publicado pela Coleção Galo Branco.

Uma leitura coletiva do livro de Sarah Valle também acontecerá a partir das 21h.

No dia do lançamento, “O Espelho d’Água” será vendido pelo preço de R$ 10,00, assim como o primeiro livro da coleção Galo Branco, “Espanto”, de Pedro Spigolon. Quem comprar o livro pelo site da Editora Medita no período que vai até a data do lançamento, receberá o exemplar com a assinatura da autora e da ilustradora.

Além disso, quem quiser adquirir o outro livro da coleção já publicado, “Espanto”, poderá comprar os dois livros, tanto pelo site, como no lançamento de “O Espelho d’Água”, pelo valor de R$ 15,00.

O lançamento tem entrada gratuita e é aberto a todos. O Espaço Ideia Coletiva fica na Rua Sacramento, 610, Centro – Campinas. Mais informações na página da Coleção nas redes sociais e também no evento criado para o lançamento.

A Coleção Galo Branco foi contemplada com o edital do ProAc de apoio a projetos de publicação de livros – coleção de obras inéditas, e publicará, ao longo do ano de 2015, sete títulos inéditos, totalizando 10.500 livros impressos. Os autores que terão suas obras publicadas pela Coleção são: Pedro Spigolon, Sarah Valle, Augusto Meneghin, Ana Júlia Ana Julia Carvalheiro, Jefferson Dias, Anderson Kaltner e Danilo Carandina.

10636914_957138527640447_7282516467813621377_o“Querendo ir além das bordas, caíram nas águas do Espelho, turvando-o. Então Io fez emergir as ilhas, para que não se afogassem. Com o tecido de seu coração os cobriu para que dormissem. E o tempo passou a lhes por colares nos pescoços.”

Sarah Valle, em “O Espelho d’Água”

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Ilustração de Natália Gregorini para o livro “O Espelho d’Água”

‘O Espelho d’Água’, 2º livro da Coleção Galo Branco, será lançado no espaço Ideia Coletiva

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No próximo dia 4 de julho, sábado, a partir das 19h, acontece no espaço Ideia Coletiva, localizado no centro de Campinas, o lançamento do segundo livro da coleção de obras inéditas “Galo Branco”, publicada pela Editora Medita: O Espelho d’Água, de Sarah Valle, com ilustração de Natália Gregorini.

No lançamento, que terá a presença da autora, o livro estará à venda por R$ 10,00. Para quem não pode comparecer ao lançamento do primeiro livro da coleção, Espanto, livro de poemas de Pedro Spigolon, este também estará à venda.

O lançamento terá também uma leitura coletiva do livro “O Espelho d’Água” e apresentações musicais com Augusto Meneghin, que também terá um livro publicado pela coleção Galo Branco, e com o harpista Leon Spiandorelli e o som lírico e suave de sua harpa, “Vitória”.

11036802_942306539125031_6072404322084596350_nPrimeiro romance da coleção Galo Branco, o livro O Espelho d’ Água foi escrito pela autora ao longo de sete anos e imerge o leitor em um universo outro, de terras e águas distantes, com uma arquitetura imagética e linguística delicada e, ao mesmo tempo, pungente, a resgatar figuras emblemáticas da literatura de viagem, como a do andarilho, esses (des)vendadores dos mundos possíveis e impossíveis.

Uma história de fins de mundo e também de sobrevivência, O espelho d´água vem acompanhado das ilustrações poéticas de Natália Gregorini, que conversam diretamente com a história narrada, sendo como uma viagem dentro dessa outra viagem que o romance de Sarah nos convida a realizar até as Ilhas d’Água.

A coleção Galo Branco foi contemplada pelo edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural (ProAC) “Concurso de apoio a projetos de publicação de livros – Coleção de Obras inéditas – no Estado de São Paulo” e publicará, até o final do ano, 7 livros inéditos, em um total de 10.500 livros impressos. Os autores que terão sua obras publicadas pela coleção são: Pedro Spigolon, Sarah Valle, Augusto Meneghin, Ana Julia Carvalheiro, Jefferson Dias, Anderson Kaltner e Danilo Carandina. Os lançamentos acontecerão até dezembro em cinco cidades do interior do estado de São Paulo.

O lançamento terá entrada gratuita. Mais informações no evento criado no facebook.

10387473_942903869065298_1477474016059895551_n“O menor dos quintais cheira a coco das roupas. Ao fundo, canteiros guardam flores comuns. Um menino recolhe pétalas e as coloca sobre os dedos fingindo serem esmalte. A moça estica as sandálias, imersas sob um fio que vaza. No espaço pequeno e infinito do quintal, o menino mantém-se ao seu redor, perto o suficiente para ouvir. De hora em hora, fitam o céu e assim farão até que venha o fim de uma tarde sem amanhã e sem tédio. Abrem um livro que trata de cedros, terebintos, nevoeiros distantes e espécies desconhecidas. Perdido entre olmos e oliveiras, há um lago. E, em seu meio, um casebre. Dentro, uma sala com almofadas. Ciprestes queimam, janelas embaçam. Caso algum dedo as toque, é capaz de congelar. Impossível sair agora. Portanto, façamos café ou chocolate. Aqui é um lugar para se ouvir uma história!” (Sarah Valle, O espelho d’água, p. 12). 

Sobre vestígios de lembrança na errância: as ilustrações de Natália Gregorini em ‘O Espelho d’Água’

O livro O Espelho d’Água, de Sarah Valle, segundo lançamento da coleção de obras inéditas Galo Branco, publicada pela Editora Medita, vem acompanhado das ilustrações feitas por Natália Gregorini.

Em uma sutil costura entre prosa e imagem, as ilustrações apresentam aos olhos do leitor esse mundo distante, de águas, ilhas, e desconhecidos personagens que, aos poucos, vão se tornando estranhamente próximos.

10387473_942903869065298_1477474016059895551_nO canivete que Kaph, ou somente Ka, transporta no bolso e que nele pesa, metendo-se no lugar “feito desejo em bola de ferro ou tapete fiado durante mil anos”, é retratado em uma das primeiras ilustrações do livro em traços feitos em nanquim, delicados, que dão forma aos minuciosos ornamentos do objeto, gerando certo contraste com o aspecto afiado da lâmina. Se nas histórias, os personagens se definem por objetos, lugares ou mesmo gostos e hábitos, esse canivete certamente parece decisivo para compreendermos Ka, e um pouco de seu mundo. O canivete sempre está ali, apenas esperando o momento em que ela o sacará do bolso.

11036802_942306539125031_6072404322084596350_nJuton, “o improvisado barco a motor de Ka”, também aparece representado em uma das ilustrações de Natália. Feita de pinceladas livres e demarcadas, a ilustração parece conseguir reproduzir uma tempestade de dentro da quietude simplória da embarcação. Os pedaços de madeira sobrepostos, uma ou outra concha aqui e ali, alguns azulejos novamente ornamentais e delicados. Pelas vastas janelas da embarcação descortina-se o mundo e sua imensidão de água.

Em uma história de andarilhos, viagens, descobertas e fins de mundo, uma das ilustrações não poderia se esquecer dos velhos sapatos, gastos pelo caminho, que nos levam e queilustração 2 são por nós levados para desvendar as paisagens. Os traços simples a nanquim voltam a destacar-se nessa ilustração recorrente na história da arte. Impossível não recordar os sapatos tímidos, velhos e poéticos de Van Gogh, apenas à espera de que alguém os tome e com eles comece uma nova viagem.

No que talvez possa ser a representação daquele fatídico medo dos habitantes de que o manto que envolve as Ilhas d’água se rompesse, uma das ilustrações revela algo como uma malha, feita toda de fios entrelaçados, rompidos por um buraco por onde entra uma luz mais intensa, em contraste com o entorno imerso em fraca, ou quase nenhuma, luminosidade. Ou ainda, o buraco do desenho pode também nos fazer pensar nas “estrelas que eram buracos em um manto”, sob as quais viviam os habitantes desta ilha. “Nenhum destes rombos sendo como o sol, habitávamos um mundo sem sombras”.ilustração 1

As altas montanhas com picos de neve que distribuíam o calor para as suas bases e os arredores, e que compunham a paisagem destas ilhas, surgem imensas em uma alternância de luminosidade em duas outras ilustrações. Claras e escuras, elas trazem ao olhar vastidão, e se tornam ainda mais vastas quando o desenho retrata, bem pequena, na parte inferior, uma embarcação com dois viajantes, prestes a romper todas as distâncias que ainda os separam do mundo.

Em outra ilustração, a imensidão dos picos continua ocupando os planos principais do desenho, eles preenchem todo campo do olhilustração 4 (2)ar, em uma harmonia que segue escalas de preto, cinza e branco. Não há clara percepção de começo ou fim, o desenho é um continuum e, nas suas bordas, permanece sempre ali, improvável, o rastro deixado na água pela minúscula embarcação, singela e forte imagem para o rastro deixado pelo andarilho nas pessoas e nos lugares por onde passa, transformando-se a partir da experiência do outro.

É neste sentido, que as ilustrações de estilo e técnica muito bem demarcados de Natália Gregorini são como uma outra viagem dentro dessa fantástica viagem empreendida até as Ilhas d’Água. Imagens que, de alguma forma, vale a pena reter, ou lembrar, vestígios de lembrança na errância.

“O andarilho deve fazer de cada espaço o lar. Confiar no amor e, por mais que as coisas mudem, manter alguma convicção do que um dia viu e o motivou a sair. Deve saber quais as poucas coisas não mutáveis
e reservar para si algo de inegociável”. (p. 90)

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2º canto: ‘Espelho d´Água’, de Sarah Valle, com ilustrações de Natália Gregorini

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Interior de Juton – ilustração de Natália Gregorini

“Querendo ir além das bordas, caíram nas águas do Espelho, turvando-o. Então Io fez emergir as ilhas, para que não se afogassem. Com o tecido de seu coração os cobriu para que dormissem. E o tempo passou a lhes por colares nos pescoços.” (p. 82)

O segundo canto que nos chega da coleção de obras inéditas “Galo Branco”, que está sendo publicada pela Editora Medita, foi construído ao longo de sete anos pela escritora Sarah Valle e agora será lançado com ilustrações de Natália Gregorini, trata-se da narrativa O Espelho d’ Água.

Primeiro romance da coleção, este Espelho d’ Água anuncia, logo no início, em uma prosa que se desfia de forma poética: “Não é uma história fácil a que tenho de contar”, como quase nunca elas são; e dedica-se, em um gesto que resume algo de seu espírito, “aos andarilhos des[vendadores]”. O leitor passa então a conviver com um cenário da inundação do arquipélago denominado por seus habitantes como Ilhas d’Água.

Diante da sua inesperada e improvável sobrevivência, os habitantes do lugar são obrigados a lidar com o desaparecimento do seu mundo, de tudo que até então era a sua realidade, o que os leva à desconfiança em relação a todas as outras. O tema do fim do mundo se desdobra no romance em uma linguagem delicada, detalhada e, ao mesmo tempo, pungente. Aos poucos, somos inseridos em um quase outro mundo e vamos nos impregnando pela curiosa arquitetura dessa ilhas desaparecidas, tornando-nos também um pouco andarilhos diante desse romance que se faz nas e pelas andanças, um romance andarilho que acontece na travessia. 10387473_942903869065298_1477474016059895551_n

“O fato de Ilhas d’Água terem sido cobertas pelo manto, o qual delimitava seu perímetro, é responsável pelo maior estranhamento quanto ao modo de vida dos seus náufragos, bem como pela curiosidade quanto a seu tom pálido e sua aversão ao sol. Vivíamos sob estrelas que eram buracos em um manto. Nenhum destes rombos sendo como o sol, habitávamos um mundo sem sombras”. (p.13)

Além de uma arquitetura específica, de um modo de vida e pensamento que o romance recorta diante do leitor, ele também busca transmitir àquele que escuta a história a especificidade de sua linguagem. O narrador, habitante da ilha que já não existe, não fala como os outros, sua linguagem é torcida, de ritmo oscilante, passagens obscuras.

E, dessa forma, vai sendo tecida a partir de personagens como “Kaph”, ou simplesmente “Ka”, a malha fantástica e, ao mesmo tempo, realisticamente humana desta história de viagens, lugares desconhecidos, distantes, sobreviventes improváveis, dessa história de dilúvios, lixo, “paraísos fiscais”, que nos recorda a nossa própria história, as nossas ilhas já naufragadas, o nosso mundo, seus começos e seus já iniciados fins.

Como escreve o poeta André Nogueira no texto de apresentação do livro, “a própria página literária, já sendo um leito em que se depositaram os sucessivos sedimentos de destruições poéticas, nos traz essas letras que sobreviveram, agrupadas como caranguejos, enquanto a escritora, ao longo de seus anos de juventude, esfarelou um castelo e o reergueu, inúmeras vezes, na areia da praia. Neste momento, em que Sarah Valle acaba de publicar seu primeiro livro de poemas Sarah Valle/Coleção Kraft (Cozinha Experimental, 2014), este romance também vem à tona, inspira fundo, e nos traz junto ao patamar dessa nova onda literária que a Editora Medita projeta sobre a calmaria de nossa língua de navegadores”.

“O menor dos quintais cheira a coco das roupas. Ao fundo, canteiros guardam flores comuns. Um menino recolhe pétalas e as coloca sobre os dedos fingindo serem esmalte. A moça estica as sandálias, imersas sob um fio que vaza. No espaço pequeno e infinito do quintal, o menino mantém-se ao seu redor, perto o suficiente para ouvir. De hora em hora, fitam o céu e assim farão até que venha o fim de uma tarde sem amanhã e sem tédio. Abrem um livro que trata de cedros, terebintos, nevoeiros distantes e espécies desconhecidas. Perdido entre olmos e oliveiras, há um lago. E, em seu meio, um casebre. Dentro, uma sala com almofadas. Ciprestes queimam, janelas embaçam. Caso algum dedo as toque, é capaz de congelar. Impossível sair agora. Portanto, façamos café ou chocolate. Aqui é um lugar para se ouvir uma história!” (p. 12) 10636914_957138527640447_7282516467813621377_o

Sarah Valle assinou 100 exemplares artesanalmente produzidos com tinta tóxica – Sarah Valle – Poemas – pela Coleção Kraft da Editora Cozinha Experimental em 2014. O Espelho d´água, narrativa escrita e traduzida ao longo de sete anos, ganhou sua milésima noite com o apoio doProAC Nº 30/2012. Em 2015, é lançada através da catapulta ProAC N° 34/2014 aos beijos com a Coleção Galo Branco.

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Natália Gregorini , com extensões de braço dadas em pincéis e lápis, conhece os mundos. Mundos de águas e de terras distantes, onde o céu é manto de quem consegue vê-lo.