‘Azulázio’, de Anderson Kaltner, será lançado em Sorocaba, interior de SP

12170432_10208083188421346_1361828553_nNo próximo dia 5 de novembro, em Sorocaba, interior de São Paulo, acontece o lançamento do livro de poemas “Azulázio”, de Anderson Kaltner, quinto livro da Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, que está sendo publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC. O lançamento acontece a partir das 18h no Mi Casa Hostel e etc .

Desde o título, o livro de Anderson já sugere quais seriam seus movimentos principais. “Azulázio” nos faz lembrar de “azul”, “azulejo”, duas palavras que aparecem nos poemas do livro, e talvez de topázio, para lembrar da pedra que aparece em um dos seus belos versos: “Amor é o afago da pedra”. Tanto azul, quanto pedra, são palavras de extenso uso poético. Desde a pedra drummondiana até o azul de Mallarmé, temos a tensão que, de certa forma, se desenvolve neste livro entre o lugar dos devaneios, dos sonhos, da imensidão, do inefável, e a pedra, objeto tão comum, rasteiro, das estradas, do chão, que, no entanto, traz em si também ares de mistério ou de coisa insondada, rara.

Anderson Kaltner vive em Campinas, onde faz literatura, toca bateria e estuda filosofia, sem pressa pela malha do tempo. Nos entretempos namora, cozinha com vontade, cuida das ervas do jardim e brinca com gatos. Mantém uma página na internet com seus poemas e colagens.

O livro estará sendo vendido no dia do lançamento pelo valor de R$ 10,00. Mais informações sobre o lançamento no evento criado no facebook. O evento tem entrada gratuita e é aberto a todos.

Com financiamento do Edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural “Concurso de Apoio a projetos de publicação de livros – Coleção de Obras Inéditas – no Estado de São Paulo”, a Coleção Galo Branco é composta por vários autores, são eles: Pedro Spigolon, Sarah Valle, Augusto Meneghin, Ana Júlia Carvalheiro, Jefferson Dias, Anderson Kaltner e Danilo Carandina. Nesse projeto estão sendo impressos um total de 10.500 livros, divididos em 7 títulos inéditos. Os lançamentos acontecerão até dezembro deste ano em cidades do interior do estado de São Paulo.

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retalhos de mares


possibilidades de chuvas
previsibilidades de poças
revolvendo de bruços
as dores do colchão
os dedos na manta
suspiros no chão
sussurros no mantra.
assim, outra vez,
deito em mim mesmo
de bruços de braços
dados um ao outro

Anderson Kaltner,
do livro “Azulázio”, página 9

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5º canto: “Azulázio”, de Anderson Kaltner

foto 2O livro “Azulázio”, do poeta Anderson Kaltner, quinto livro que integra a Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC, leva no título uma palavra que não pode ser encontrada no dicionário, não tem um sentido já definido, e surge aqui como uma nova palavra, ou neologismo, como se diz, palavra construção, palavra coisa, que concentra em si outros sentidos.

“Azulázio” nos faz lembrar de “azul”, “azulejo”, duas palavras que aparecem nos poemas do livro, e talvez de topázio, para lembrar da pedra que aparece em um dos belos versos que compõem o livro e diz: “Amor é o afago da pedra”. Tanto azul, quanto pedra, são palavras de extenso uso poético. Desde a pedra drummondiana até o azul de Mallarmé, temos a tensão que, de certa forma, se desenvolve neste livro entre o lugar dos devaneios, dos sonhos, da imensidão, do inefável, e a pedra, objeto tão comum, rasteiro, das estradas, do chão, que, no entanto, traz em si também ares de mistério ou de coisa insondada, rara.

“Azulázio” parece combinar em suas imagens essas duas direções. O sonho é uma grande presença – “que permanece por mais tempo” – ao lado dos vastos mundos interiores com seus revestimentos, seus azulejos, do frenético instante do acordar. O eu dos poemas parece encenar uma separação em relação ao ego, uma distância, o movimento do “despertencer”, insinuando o convite ritualístico ao devaneio.

foto 4Os próprios amantes, presença constante principalmente nos poemas iniciais do livro, se envolvem em mistério, têm os rostos cobertos por panos, imagem de um dos poemas que parece dialogar com o quadro de René Magritte chamado justamente “Os Amantes”, onde se vê duas pessoas de cujos rostos só se percebe os contornos através do pano que os cobre.

São presenças em fuga – “noite em fuga, poltronas em fuga” – que o livro poetiza no seu livre e experimental trabalho com a linguagem. Presenças que são, antes de tudo, não presenças, ou presenças fantasmáticas, que fogem, escapam, se dão como ausência.

Se o livro fala de sonhos, imensidão, também fala de ossos, de corpo, de coisas do cotidiano, de um facebook em decomposição, gifs que cansam, e se constrói com uma linguagem bastante próxima, feita de palavras em português, inglês, palavras inventadas ou não, gírias, modismos, afetações ou naturalidades, talvez no sentido de cumprir com um desejo (esforço) manifesto em um dos poemas: de soar macio.

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E assim ele soa, macio, mesmo quando suas letras e sua forma gritam: “ESPELHAREI O CHÃO PARA TER O CÉU EM DOBRO”. Essa frase, que se repete freneticamente em um poema de traços concretistas, também reverbera e parece estar dita nas imagens/montagens/colagens que acompanham os poemas do livro. Uma delas traz uma embarcação em cujas velas se imprime o espaço cósmico e sua imensidão de estrelas. Em outra, o céu noturno com seus pontos brilhantes aparece ao fundo, em outra ainda há um planeta, sobre o qual se sobrepõe algo como uma mandala, ambos sustentados (aqui cria-se a ilusão própria das montagens e, mais uma vez, própria de Magritte) por uma outra forma circular: (talvez) a de uma vitória régia. E há ainda outro universo, no meio do qual paira solitário uma espécie de cristal.

“Azulázio” nos chega, ao que parece não sem certa intenção, como um objeto desconhecido, mais poético do que místico, pois embora seus poemas busquem esse céu em dobro, no sutil movimento de “fazer das paredes gestos lentos”, eles não pretendem nada mais do que ter o “tamanho de um cigarro”.

emudeceremos caso seja muito cedo ainda para dizer sobre
o nosso desejo de soar macio, de fazer das paredes gestos
lentos. dizemos nos despertencendo, emudeceremos caso seja
amanhã muito cedo ainda para dizer sobre o ontem do nosso
esforço de soar macio, de fazer das paredes gestos lentos.
dizemos nos despertencendo e mais uma vez

(p. 33)

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* Anderson Kaltner vive em Campinas, onde faz literatura, toca bateria e estuda filosofia, sem pressa pela malha do tempo. Nos entretempos namora, cozinha com vontade, cuida das ervas do jardim e brinca com gatos. Mantém uma página na internet com seus poemas e colagens.

‘Pluma e Imensidão’, quarto livro da Coleção Galo Branco, será lançado em Araras

12033740_10207864722599837_1252766891_n“Pluma e Imensidão”, de Augusto Meneghin, quarto livro da Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, que está sendo publicada neste ano de 2015 pela Editora Medita com recursos do ProAC, será lançado na cidade de Araras, interior de São Paulo, no próximo dia 10 de outubro, sábado, a partir das 19h, no Centro Cultural De Araras Leny de Oliveira Zurita.

“Pluma e Imensidão’ poderia ser visto simplesmente como um livro de poesia, mas, mais do que isso, é um livro de poemas, de imagens, de lugares, que supõe e convida o leitor a saltos, devaneios e toda sorte de imensidões. Segundo livro de Augusto, que já publicou pela mesma Editora Medita o livro de poemas “O Mar sem nós”, “Pluma e Imensidão” traz um primeiro poema, que dá título ao livro, e outros poemas que, mesmo nas suas particularidades e ritmos próprios, tecem juntos uma beleza múltipla.

A potência da imagem poética reverbera nas páginas do livro, dando forma a uma poesia plástica que mais do que ser entendida, pretende-se sentida, daí sua intimidade com tudo que é da ordem do corpo e do espaço. Poesia-experiência, poesia-correspondência, que produz imagens como: “exceto o pássaro em seu primeiro voo, poucos atravessam uma nuvem em todas as direções”.

Augusto Meneghin nasceu em Araras, interior de São Paulo, no ano de 1987. Atualmente, se dedica à poesia e às artes plásticas. Mantém um site onde publica alguns textos e imagens de seu trabalho. “Da angústia, centro no qual o drama cósmico se desenrola e lugar onde a criação faz seu labirinto de acasos, nutro o sentido de meu movimento. E se falo em poesia, não é por hábito trágico, mas porque assim diz-se muitos caminhos”.

Com financiamento do Edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural “Concurso de Apoio a projetos de publicação de livros – Coleção de Obras Inéditas – no Estado de São Paulo”, a Coleção Galo Branco é composta por vários autores, são eles: Pedro Spigolon, Sarah Valle, Augusto Meneghin, Ana Júlia Carvalheiro, Jefferson Dias, Anderson Kaltner e Danilo Carandina. Nesse projeto serão impressos 10.500 livros, divididos em 7 títulos inéditos. Os lançamentos acontecerão até dezembro deste ano em cidades do interior do estado de São Paulo.

O lançamento de “Pluma e Imensidão” terá entrada gratuita e é aberto ao público em geral. O livro estará à venda pelo valor de R$ 10,00. O Centro Cultural de Araras fica na Avenida Ângelo Franzini, s/nº, Jardim dos Ipês.

Mais informações pelo evento criado nas redes sociais.

“Aceito a poesia em sua vertente criminosa – se é que pode haver outra”

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Jefferson Dias

“Imponho-me o desafio de perturbar o leitor, de desalojá-lo – de tornar-lhe manifesta a defasagem que há entre as palavras e as coisas”. Com essas palavras, o poeta Jefferson Dias, autor de “Silenciosa maneira“, terceiro livro lançado pela Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, perturba o seu próprio fazer poético.

Na pequena entrevista que se segue, Jefferson fala um pouco sobre o processo de construção do “Silenciosa maneira“, relacionando-o a dois outros livros seus, “Último festim” e “Qualquer lugar“. Na origem dos três, percebemos uma vivência experimental onde a palavra ocupa o lugar de um resíduo sempre certo, essa “máquina precária”, capaz de colocar em movimento “um projeto legítimo, que concilie a visão devaneadora e a recolha cerebral do mundo, de modo a patentear que toda realidade é uma construção lograda através do verbo”.

Jefferson se revela como um poeta que já fez algumas escolhas, entre elas a recusa do figurativismo e a percepção de sua insuficiência, a intempestiva atitude de, como poeta, “ir na contramão”, o que ele também chama, de forma não menos imersa em poesia, de aceitar esta última em sua vertente criminosa. Antes de conciliadora, a linguagem para ele deve deixar-se eletrificar, tensionando realidades distintas, o que não deixa de ser um gesto corajoso, e hoje raro, de colocar-se constantemente à prova.

“Os que me acusam de hermético, de anacrônico, de lusitano, acertam em cheio”, diz o poeta comprometido com o rompimento radical com o convencional. “É preciso aprender com Lautréamont!”, ele completa, em um esboço de toda uma poética concebida para ensurdecer, perturbar, tirar do lugar, gerando curtos circuitos, lampejos, incêndios que, imensos, enredam-se em uma ambígua silenciosa maneira.

Coleção Galo Branco: Como foi o processo de construção do seu livro “Silenciosa maneira”? Quando e por que ele começou a nascer?

Jefferson Dias: Em 2013 publiquei Último festim, livro cuja natureza não é senão a de uma coletânea. Os poemas que o integram vinham sendo escritos desde 2011, a partir de um entusiasmo com a linguagem que se deveu a três principais fatores, quais sejam: o estudo remisso das vanguardas europeias e dos modernistas brasileiros, uma oficina de criação poética com Claudio Willer e o conhecimento da poesia de Herberto Helder. Tal impulso, apesar de consistente, denotava apenas uma vontade embrionária no que tangia a um projeto – o que significa dizer que os textos dessa época, mesmo que não tenham sido originalmente escritos para compor um livro, acabaram por propiciar uma recolha orgânica.
Com o Silenciosa maneira ocorreu o contrário: havia, já, o delineamento de um projeto literário e o desejo de elaborar um objeto programaticamente fechado. Havia também uma inquietação relativamente à empresa prévia. Tanto é assim que a movimentação contrapontística já se faz notar desde os títulos – se no primeiro trabalho, ainda que anunciadamente baldado, o tom imperante era eufórico, quase galhofeiro, no segundo, como era de se esperar, ocorre a introversão, a reavaliação da técnica e o intento de ressignificação da parte, agora ante um corpo mais bem formado. A intitulação é importante à medida que o processo que a perfaz indica itinerário: o festim só se afigura ultimado porquanto a fatura silenciosa já se deixava entrever desde o primeiro comprometimento. Escolhi o nome do primeiro livro enquanto escrevia o segundo. Convém, então, citar o descompasso entre o tempo da escrita e o da publicação; os poemas de Silenciosa maneira datam de 2012, e sua vinda a lume coincide com o remate de um terceiro volume, Qualquer lugar. E esse interregno se constitui formativo, uma vez que ponha em relação os três livros ainda no prelo, quer dizer, há uma ininterrupção – e não há como falar de um deles sem considerar os outros.
Podemos mesmo falar em trilogia, de modo que, se apelarmos às limitações paregóricas da exegese, teríamos o seguinte: Último festim e Silenciosa maneira são, respectivamente, a tese e a antítese – Qualquer lugar, a síntese. Aliás, o projeto se faz mais evidente se tivermos em conta este último livro; solve-se, portanto, qualquer questão acerca de genealogia. Nesse livro, o poeta oscila libertinamente: ora é o poète assassiné, ora quer, como se lê no “Prefácio”, “dizer ‘eu’ como dissesse tudo”, porque sabe que a vida é invenção forçosa e desesperada, e ante tal absurdo – ante a morte – qualquer projeto é deitado abaixo. Daí o título: viver é um trânsito, busca infinda que se perfaz em si, parte-se de um lugar qualquer para se chegar a qualquer lugar, apenas pelo passatempo, apenas porque o gênero humano não aguenta a finitude de tudo. A palavra é só o que resta, máquina precária que será, porém, sempre “Implacável e máximo obstáculo”, como está dito no poema “Suicidamente”, ao afã organizacional do homem. Ainda assim o poeta canta as “casas cárneas”, a “terra da espada”, a vida cotidiana, as cidades, o café para fumar. Qualquer lugar, em suma, tenta afirmar imensamente a resignação ante o projeto, ante o movimento – e, consequentemente, também a liberdade criadora irrestrita ante o fato de que todos os caminhos levam a um único fim.
Tomando-se Qualquer lugar por síntese, este dá a ver motivos e causas que atravessam a sua gênese e a dos dois livros anteriores: busco erigir – mediante fábrica experimental, isto é, vivência experimental – um projeto legítimo, que concilie a visão devaneadora e a recolha cerebral do mundo, de modo a patentear que toda realidade é uma construção lograda através do verbo. Imponho-me o desafio de perturbar o leitor, de desalojá-lo – de tornar-lhe manifesta a defasagem que há entre as palavras e as coisas.

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Retrato de Lautréamont

GB: Uma das características que logo de início se nota no seu livro é a escolha de um vocabulário muito específico – que não economiza em termos científicos, nem mesmo em palavras que podemos ver como perturbadoras ou mesmo provocadoras do leitor e da própria poesia – qual seria a razão da escolha dessas palavras? Que papel elas cumprem em “Silenciosa maneira”?

JD: Acredito que a poesia possibilita uma experiência genuinamente genesíaca. Não se trata de escapismo, tampouco de redenção, mas de desenredo. O figurativismo, apesar de seus belos produtos, e ainda que estilizado, afigura-se limitado – e por isso não serve, porque só reproduz. O meu dever pessoalíssimo, que não passa de satânica vaidade, e que nada tem de transcendental, é o de ir, evidentemente, na contramão; isto é, aceito a poesia em sua vertente criminosa – se é que pode haver outra.
A poesia passa, necessariamente, pela aproximação de realidades distintas, pela eletrificação do léxico. Todavia percebo entre os meus coetâneos uma tendência pujante, que é a de produzir através de uma linguagem meramente mediadora da realidade, tendência essa animada, a meu ver, por um desejo, intimamente afinado com o nosso tempo, de fazer sentido, de compreender e ser compreendido rapidamente; isso pertence ao âmbito da prosa – e para concordar com Herberto Helder (que, por sua vez, concordou com Octavio Paz), a prosa é uma corrupção da poesia. Surpreende-se, não raro, prosa escrita em verso.
Os que me acusam de hermético, de anacrônico, de lusitano, acertam em cheio; o poema deve ser um sismo; assim, para lográ-lo, lanço mão de alguns expedientes, que se revelam, sobretudo, na escolha vocabular. A poesia encerra em seu cerne o rompimento com o convencional, uma atitude levada a efeito de nenhum outro modo senão radicalmente – é preciso aprender com Lautréamont! Meu desígnio é, portanto, a obtenção do objeto poético por meio do incômodo, do estranhamento; ir na contramão consiste justamente nisso: a poesia deve ser truculenta, jamais pragmática.

GB: A poesia parece uma personagem decisiva nos seus poemas que, a todo momento, voltam suas imagens para ela, assim como para certa melancolia contínua, uma morte sempre à espreita, um medo igualmente vigilante. Seu livro poderia talvez ser visto como um exercício de autocrítica da poesia feito pela e na própria poesia? Seria esta, ao lado também de um exercício tensivo onde a beleza se deixa atravessar pela podridão, uma das questões fundamentais (em processo de formulação e construção) da sua poesia?

JD: Respondo sim a ambas as perguntas. É natural, tendo-se em conta o que disse acima, que o poema se volte sobre si. O metapoema, para além de ser um exercício de reflexão, é, também, um exercício de estilo, um modo de alcançar o silêncio. A carência de referência externa provoca o abalo por meio da afirmação da autonomia do texto. Já no âmbito da temática, o poema pode desacomodar o leitor – ao mesmo tempo em que instaura o vaticínio – se desmitificar o mito e se mitificar a rotina. A morte e o medo dela constituem tabu universalmente glosado; no entanto, desnudar-lhe microscopicamente as minúcias, tanto sua crueza, quanto sua vulgaridade, é o que faz do poeta um vate. Obviamente, o tratamento estetizado do assunto pressupõe o engenho – e é isso que faz de mim um poeta.
A morte, bem como a negação do alicerçamento metafísico de um sentido à vida e de uma ética, perpassam o meu comprometimento. O meu estilo se constitui, fundamentalmente, a partir da exposição do absurdo de uma vida sem significação, exposição essa levada a efeito com a consciência de que deus e de que a palavra são convenções e, como tais, passíveis de subversão por meio do exercício estético. Qualquer beleza admite, assim, a putrefação – e vice-versa. O efeito imediato de tal opção, relativamente ao leitor, é a intensificação da fruição do poema por via do contraste.

O homem é um trânsito até à loucura da poesia.
A vida é uma meta ou qualquer lugar.

A necessidade de futuro:
O líquen oscilando sob a calcinação da luz,
Porquanto há o homem,
Apenas porquanto há o homem,
A esfinge humana que se solve e se coagula a si,
Que tem esperança e que se devora a si,
Porquanto há que haver o recreio,
A sanguinolência metafísica.
A necessidade do futuro: a desnecessidade do futuro.
Não há razão por detrás das estrelas,
Há apenas a vida
E a razão
E a mentira diária respirando alta
Até à loucura.
O desprezo nédio, a comiseração adelgaçada:
Não são senão dois pratos de um mesmo banquete.

A vida é um acaso refugindo fundo:
Buscar e rebuscar um cancro para a cura.

(trecho do poema “Qualquer lugar”, p. 78)

‘Silenciosa maneira’, de Jefferson Dias, será lançado em São Carlos com homenagem a Herberto Helder

11698678_626764177426810_7596125281760283051_n“Silenciosa maneira”, de Jefferson Dias, o terceiro livro da coleção Galo Branco, que está sendo publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC, será lançado no próximo dia 19 de agosto, quarta-feira, no Teatro de Bolso da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), a partir das 17h.

Além do lançamento do livro, que estará sendo vendido no dia pelo valor de R$ 10,00, o evento terá um recital e uma homenagem ao poeta português Herberto Helder, importante influência para o livro de Jefferson Dias. Em Herberto Helder, Jefferson parece buscar o universo da mitologia edipiana e da imagem da mãe, que atravessa de forma mais expressiva a segunda parte de “Silenciosa Maneira”, sendo o poeta português citado literalmente em um dos poemas.

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Herberto Helder

Além de Herberto Helder, “Silenciosa maneira” traz ecos de Augusto dos Anjos, percebidos seja na expansão de imagens de dor, horror e morte, seja em um vocabulário que nos fala de cancro, mênstruo, esperma, leite, cuspe e gangrena, com um gosto pela anormalidade que se revela poética. Um livro inicialmente difícil e perturbador, nele sobretudo há tensões entre materialidade e metafísica, entre festins e solidão, entre o poeta – esse ser dos paradoxos – e o poema – esta fantasmagoria – entre o eu e o outro. Justamente é o poema outro grande personagem deste livro ensurdecedor em seu silêncio que combina momentos de sensualidade com lampejos espirituais, uma melancolia contínua e uma sutil reverberação da vida.

Jefferson Dias nasceu em Monte Sião, Minas Gerais, em 1990. Mudou-se bem logo para Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde reside até hoje. Concluiu no ano de 2014 o curso de Letras da Universidade Federal de São Carlos; debruçou-se, em seu trabalho de conclusão de curso, sobre a montagem do poema “Húmus” (1966), empreendida pelo poeta lusitano Herberto Helder, a partir do romance homônimo (1926) do também português Raul Brandão. Publicou, em 2013, pela editora Multifoco (Rio de Janeiro-RJ), o livro de poemas Último Festim. Em 2014 teve o poema “Dédalo” publicado na segunda edição da revista euOnça (editora Medita, Campinas-SP). Além de “Silenciosa maneira”, escreveu Qualquer Lugar (poesia, inédito) e Sonata do Diabo (romance, inédito). Mantém um site onde publica alguns de seus textos.

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Jefferson Dias

Financiada pelo Edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural “Concurso de Apoio a Projetos de Publicação de Livros – Coleção de Obras Inéditas – no Estado de São Paulo”, a coleção Galo Branco imprimirá, ao longo de 2015, 10.500 livros, divididos em 7 títulos inéditos. Os lançamentos serão realizados até dezembro em cinco cidades do interior do estado de São Paulo. São várias as vozes que compõem a polifonia dessa coleção: Pedro Spigolon, Sarah Valle, Augusto Meneghin, Ana Júlia Carvalheiro, Jefferson Dias, Anderson Kaltner e Danilo Carandina.

O lançamento tem entrada gratuita e é aberto ao público em geral. Os dois livros já lançados pela coleção Galo Branco, “Espanto”, de Pedro Spigolon, e “O Espelho d´água”, de Sarah Valle, também estarão à venda, os dois por R$ 15,00. Mais informações na página do evento no facebook.

Dizer o acaso – dizer a vida –, mas dizer.
Inventar os arranjos, dizer os rostos,
Fermentar os ossos do poema, revelá-los simples:

Toda a hipocondria – arranjo repleto geral,
Outro poema: cavalos quebrados –
E toda a ternura, a carne do gesto.

A cabeça da palavra: Herberto Helder
Qual uma península na dança.

[…]

(trecho do poema “Arranjos”, p. 37)

Coleção Galo Branco

3º canto: ‘Silenciosa maneira’, de Jefferson Dias, e a reflexão que integra vida e poesia

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Foto de Wladimir Vaz

Silenciosa maneira, de Jefferson Dias, é o terceiro canto que chega aos leitores por meio da coleção de obras inéditas Galo Branco, que está sendo publicada pela Editora Medita com financiamento do ProAC. Pela mesma coleção já foram lançados Espanto, de Pedro Spigolon, e O Espelho d’água, de Sarah Valle.

Como escreve Wilson Alves-Bezerra, professor de literatura da UFSCar, no prefácio do livro, “não é de silenciosa maneira que os poemas do segundo livro de Jefferson Dias chegam aos leitores”.

Construídos a partir de fortes imagens, com uma linguagem que combina um vocabulário erudito e palavras comuns, os poemas de Jefferson Dias transmitem logo de início a presença marcante de dois sentimentos que atravessam todo livro: o medo e a morte, ambos mutuamente alimentando uma certa atmosfera de melancolia sempre a fazer-se, na sua peculiar e silenciosa maneira. “Que o amor enleve a minha melancolia”, diz o primeiro verso do poema “Ressaibo”, revelando ao leitor um eu lírico recortado por uma tristeza vaga e constante, podendo ser arrebatada, quem sabe, pelo amor.

Insistentes no medo e em certo desamparo, ou inutilidade de tudo diante de uma impossibilidade de comunicação, dizem os versos do poema “Recidiva”:

Corre-me nas veias o leite do medo;
Não posso falar-te
E tu não me podes ouvir.

Ecos do poeta Augusto dos Anjos percebem-se por todo o livro, seja na expansão de imagens de dor, horror e morte, seja em um vocabulário que nos fala de cancro, mênstruo, esperma, leite, cuspe e gangrena, com um gosto pela anormalidade que se revela poética, tanto naquele poeta dos sonetos que eram subvertidos em sua rigidez de forma clássica pelo conteúdo, quanto neste poeta contemporâneo dos versos livres interessados mais “no anacrônico e no extemporâneo, do que no coloquial e no familiar”, como diz Wilson Alves-Bezerra. 

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Não há facilidade nesse livro inicialmente difícil e perturbador, “atrevido”, como bem apontou Wilson Alves-Bezerra, sobretudo há tensões entre materialidade e metafísica, entre festins e solidão, entre o poeta – esse ser dos paradoxos – e o poema – esta fantasmagoria – entre o eu e o outro. Justamente é o poema um grande personagem deste livro ensurdecedor em seu silêncio, objeto refletido em tantos momentos, de tantos versos.

No poema “Petição”, por exemplo, o medo percorre as imagens servindo como metáfora para o próprio poema.

Como quem mata ou alimenta.
Teu poema é o medo.
Tu te arrojas, cancro e sombra de felino –
Arrasadas as habitações no centro da noite,
Emudecidas as posses no comum da mudança –;
Teu poema mudara.

Teu poema era a novidade na dança da madeira;
O medo era o animal na tua resposta.

Alcançaste.

E tornarás a alcançar.

Um livro de momentos sensualmente corpóreos, como o destes três versos que iniciam a segunda parte do poema “Voz”,

O sexo macio e arrefecido pelo lado de dentro,
O pudor e a obscenidade metidos dentro
De uma porção apanhada e enrolada de cabelo feminino,

e também de lampejos espirituais como este que pousa generosamente na alma ao final do poema “Saudade”, preenchendo-a com uma suave tristeza, uma melancolia contínua que nos causa o tempo diante das inúteis e silenciosas maneiras que seguimos inventando para recompor as alegrias passadas.

Não há resposta útil. Mas uma tristeza suave.
E esta silenciosa maneira de recompor –
Sem êxito –
As alegrias empoadas
E de esperar insistindo, como houvesse alguém
Que nos queira ouvir.

A mesma melancolia continua a fazer-se nestes momentos de um lírico desamparo desdobrado em desencontros, que nos chega de forma tão próxima em versos como:

A poeira eterna dos nossos desencontros,
O silêncio inexpugnável das confissões
Que jamais levamos a efeito,
Pedaços de coisas inúteis metidos dentro
Nas gavetas impudentes,

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Jefferson Dias

Em dois movimentos parece fazer-se esse “Silenciosa maneira”. Se em um instante busca prolongar um pensamento que se debruça sobre a inutilidade da vida diante da morte, sobre um brutal desamparo do sujeito, uma aparente ausência de maiores sentidos, também reverbera resistências, insistências, deixando falar a própria vida que escapa, ainda que brevemente, por entre a “morte, rubra e dourada, (que) encrespa as duas margens”.

Neste sentido, é no mesmo poema, separados por poucos versos, que o poeta diz: “Há este desejo antediluviano e ciclópico de partir”; para logo em seguida, acrescentar: “Este desejo antediluviano e ciclópico de permanecer”. Não há como não pensar em Freud quando este diz ser a morte o destino de toda vida, e, ao mesmo tempo, pensar no caminho contrário, aquele que também percebe ser a vida o destino de toda morte. Tais intervalos entre partir e permanecer, tais hesitações e deslocamentos se tensionam seja neste livro de poemas de Jefferson, seja na própria existência, onde os instantes de fugaz alegria estão intercalados com aqueles outros, sempre constantes, de solidão.

Por isso, este livro, se esboça um elogio à metafísica

A ideia metafísica faz com que haja algo além
Do espaço e do tempo bestiais; o que torna as
Coisas mais difíceis aos seres racionais, mas também
Mais belas

também vai dizer,

Não há razão por detrás das estrelas,
Há apenas a vida
E a razão

complementando,

A vida é um acaso refugindo fundo:
Buscar e rebuscar um cancro para a cura.

deixando-nos impressa, por entre vermes, sangue e podridão, uma silenciosa promessa de beleza.

‘Escrever tem um custo. Um espelho d´água é também um desencontro entre metáforas’, diz Sarah Valle

10636914_957138527640447_7282516467813621377_o“Narrar começa como necessidade de distorcer o sentido até distendê-lo fatalmente”, diz a escritora Sarah Valle a propósito do processo de construção do seu livro, “O Espelho d’Água”, ilustrado por Natália Gregorini, que será lançado no próximo sábado, 4, no Espaço Ideia Coletiva, em Campinas.

O ato de narrar parece, de fato, decisivo para este romance de Sarah, não por acaso, toda a história começa com a descrição de uma cena que, ao final, se encerra dizendo: “Aqui é um lugar para se ouvir uma história!”. Como disse Walter Benjamin* a respeito do narrador, a figura deste último se constitui a partir de uma tensão entre aquele que vem de longe e o homem que nunca saiu de seu país, mas conhece muito bem suas histórias e tradições. Aquele que vem de longe, o viajante, transmite aos outros a experiência ditada pela distância espacial, enquanto que o sedentário tem suas histórias constituídas a partir de uma distância temporal. Ambas as distâncias alimentam o senso prático, a sabedoria contida nas histórias, na experiência que jamais se esgota, mesmo que sobre ela passem muitos, muitos anos, amplitude e fecundidade próprias daquilo que evita explicações e se aproxima de certo modo do miraculoso, do mítico.

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Ilustração de Natália Gregorini

Na pequena entrevista que se segue, Sarah fala um pouco sobre “o período de encantamento dos sentidos”, os sete anos em que esteve a escrever essa história, sobre amadurecimentos, sobre o aspecto oracular de algumas cenas, lembra os elementos biográficos que aparecem no romance, como o canivete, o vômito enquanto “terrorismo poético”, e também os simples acasos que foram acontecendo na teia narrativa, alheios à sua consciência ou vontade, ao contrário da estruturação da linguagem em períodos de frases condensadas, produzindo um escoamento do texto da metade para o final do livro.

Sarah fala também sobre os andarilhos, esses personagens essenciais na sua história de viagens, distâncias, de Outros; portadores das histórias que, mesmo silenciadas ou hermeticamente misteriosas, não morrem nunca, ou antes estão sempre se transformando em outras coisas.

Sarah cita a imagem dos hebreus que, depois de terem saído do Egito, vagam quarenta anos pelo deserto sem que seus sapatos se gastem. São dessa natureza as histórias como a desse romance “O Espelho d’Água”, feita de acasos e outras histórias, lendas, mitos. Em uma associação com o que diz Benjamin, “ela se assemelha a essas sementes de trigo que durante milhares de anos ficaram fechadas hermeticamente nas câmaras das pirâmides e que conservam até hoje suas forças germinativas”.

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Ilustração de Natália Gregorini

Galo Branco: Seu livro “O Espelho d’Água” foi escrito ao longo de sete anos. Como foi o processo de construção da obra ao longo desse tempo e o que ela mobilizou, em termos de tempo, espaço, estudo e mesmo experiências pessoais para ser realizada?

Sarah Valle: Com “sete anos” refiro-me ao período de encantamento dos sentidos, em que um universo é gerado como um duplo do homem. A última versão escrevi entre janeiro e julho de 2013, é tradução de outras. Narrar começa como necessidade de distorcer o sentido até distendê-lo fatalmente. Representar para afirmar, para romper. Inconsciente vindo para a consciência. Eu não havia notado o aspecto de útero do manto, era criança. Da última vez, já sabia o que estava em questão nas escolhas do enredo, mas, de início, algumas cenas prenunciaram acontecimentos, como oráculos. Foi um enlaçamento de linguagem, um jeito de apropriar-me de um real difícil, de atingir um Outro.

GB: A arquitetura imagética do seu livro é toda ela muito específica, o romance descreve em detalhes a paisagem, por exemplo, das Ilhas d’Água, seus habitantes, a presença decisiva do manto. Quais os elementos ou mesmo as referências que te ajudaram a dar forma a esse mundo desconhecido, a esse Outro?

SV: Há elementos literalmente biográficos: o canivete, o corte da mão, o vômito enquanto “terrorismo poético”, Nô Bet é trocadilho para Bento – ETE Bento Quirino etc.. Eu diria que a parte azul (as conchas são as preces da água) tem 15 anos, a verde (de pirata a andarilho), 16 e a vermelha (em busca do miraculoso), 17. Há também acasos: Io é o nome de um deus polinésio. Não me recordo de sabê-lo antes. A Polinésia sempre esteve presente, não sei porquê. O manto, útero, pode ser lido como espécie de caverna platônica. A estrutura de interpretação é mítica. Há também uma preocupação com frases condensadas. Uma tensão na linguagem de quem não pode dizer muito. O texto se acelera muito da metade para o final, como uma ampulheta.

GB: Uma das figuras fundamentais do seu livro é a do andarilho, a quem você dedica a história logo no início, antes dela começar a ser contada. Por quê o andarilho e, em que medida, ele ajuda a entender o que de fato está em questão em “O Espelho d’Água”?

SV: Na saída do Egito, os hebreus vagam quarenta anos pelo deserto sem que seus sapatos se gastem. Cada andarilho relaciona-se apaixonadamente com Io, que precisa ser posto no espelho, ultrapassado. Há certa alegoria com um anarco-cristianismo. Térea, torre de Babel no perímetro de Deus, devaneio de exílio, órfã estranhamente familiar, diz um “sim” nietzschiano a partir de seu niilismo. Escrever tem um custo. Um espelho d´água é também um desencontro entre metáforas. Uma vez que algo é amado, é amado para sempre. Assim o quisemos. Assim havemos de querê-lo. Mas nosso amor é amoral. Os andarilhos são os que se deparam com lugares muito ermos da própria consciência, os que amaram demais com incerteza, os que escolheram a terra, que procuram e já não encontram razões atrás das estrelas para se sacrificarem, que dedicaram muito tempo a uma interpretação de mundo até destruí-la.

*BENJAMIN, Walter. “O Narrador” in: Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas Vol. 1. São Paulo: Editora Brasiliense, 1993

‘O Espelho d’Água’ estará à venda na lojinha da Editora Medita e será lançado com música e leitura coletiva

10421352_616806211755940_3779550329576756707_nAndarilhos, amantes de terras distantes, paisagens novas e desconhecidas, ou simplesmente os andarilhos das letras, que tanto viajam com os olhos debruçados sobre elas, estão convidados para o lançamento do segundo livro da Coleção de obras inéditas Galo Branco, que está sendo publicada pela Editora Medita.

Trata-se do livro “O Espelho d’Água”, de Sarah Valle, com ilustrações de Natália Gregorini. O lançamento acontece no dia 4 de julho, sábado, a partir das 19h, no Espaço Ideia Coletiva, no centro de Campinas.

Além da presença da autora e ilustradora, o lançamento terá uma programação variada de atrações artísticas. A partir das 19h, acontece uma apresentação com o músico Leon Spiandorelli, acompanhado de sua harpa “Vitória”. Leon iniciou seus estudos de harpa em março de 2012, no Conservatório de Tatuí. Como já possuía conhecimentos musicais provindos do estudo de piano erudito, o desenvolvimento no estudo e prática musical da harpa foi acelerado.

1798065_1409474009305198_1250063654_nPresente em praticamente toda a história da humanidade, a harpa é um dos instrumentos musicais mais antigos de que se tem conhecimento, observada até mesmo em desenhos na tumba do Faraó Ramses III. Seu timbre, por mais suave e angelical que seja, é capaz de exprimir as mais variadas emoções, de calmaria a tempestade. Além disso, é um instrumento harmônico: suas cordas vibram independentemente, permitindo ao músico executar pequenos detalhes da música, além de sua melodia e acompanhamento. O músico utiliza em suas apresentações uma harpa céltica, carinhosamente nomeada de Vitória por sua dona anterior, nomeação que ele decidiu manter.

11377234_1597005447255510_4056898432872527957_nA partir das 20h, o público poderá assistir a outra apresentação musical com o poeta e músico Augusto Meneghin que, acompanhado de violão e belas letras, traz uma melodia delicada e poeticamente construída. Augusto será o próximo autor a ter um livro publicado pela Coleção Galo Branco.

Uma leitura coletiva do livro de Sarah Valle também acontecerá a partir das 21h.

No dia do lançamento, “O Espelho d’Água” será vendido pelo preço de R$ 10,00, assim como o primeiro livro da coleção Galo Branco, “Espanto”, de Pedro Spigolon. Quem comprar o livro pelo site da Editora Medita no período que vai até a data do lançamento, receberá o exemplar com a assinatura da autora e da ilustradora.

Além disso, quem quiser adquirir o outro livro da coleção já publicado, “Espanto”, poderá comprar os dois livros, tanto pelo site, como no lançamento de “O Espelho d’Água”, pelo valor de R$ 15,00.

O lançamento tem entrada gratuita e é aberto a todos. O Espaço Ideia Coletiva fica na Rua Sacramento, 610, Centro – Campinas. Mais informações na página da Coleção nas redes sociais e também no evento criado para o lançamento.

A Coleção Galo Branco foi contemplada com o edital do ProAc de apoio a projetos de publicação de livros – coleção de obras inéditas, e publicará, ao longo do ano de 2015, sete títulos inéditos, totalizando 10.500 livros impressos. Os autores que terão suas obras publicadas pela Coleção são: Pedro Spigolon, Sarah Valle, Augusto Meneghin, Ana Júlia Ana Julia Carvalheiro, Jefferson Dias, Anderson Kaltner e Danilo Carandina.

10636914_957138527640447_7282516467813621377_o“Querendo ir além das bordas, caíram nas águas do Espelho, turvando-o. Então Io fez emergir as ilhas, para que não se afogassem. Com o tecido de seu coração os cobriu para que dormissem. E o tempo passou a lhes por colares nos pescoços.”

Sarah Valle, em “O Espelho d’Água”

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Ilustração de Natália Gregorini para o livro “O Espelho d’Água”

Sobre vestígios de lembrança na errância: as ilustrações de Natália Gregorini em ‘O Espelho d’Água’

O livro O Espelho d’Água, de Sarah Valle, segundo lançamento da coleção de obras inéditas Galo Branco, publicada pela Editora Medita, vem acompanhado das ilustrações feitas por Natália Gregorini.

Em uma sutil costura entre prosa e imagem, as ilustrações apresentam aos olhos do leitor esse mundo distante, de águas, ilhas, e desconhecidos personagens que, aos poucos, vão se tornando estranhamente próximos.

10387473_942903869065298_1477474016059895551_nO canivete que Kaph, ou somente Ka, transporta no bolso e que nele pesa, metendo-se no lugar “feito desejo em bola de ferro ou tapete fiado durante mil anos”, é retratado em uma das primeiras ilustrações do livro em traços feitos em nanquim, delicados, que dão forma aos minuciosos ornamentos do objeto, gerando certo contraste com o aspecto afiado da lâmina. Se nas histórias, os personagens se definem por objetos, lugares ou mesmo gostos e hábitos, esse canivete certamente parece decisivo para compreendermos Ka, e um pouco de seu mundo. O canivete sempre está ali, apenas esperando o momento em que ela o sacará do bolso.

11036802_942306539125031_6072404322084596350_nJuton, “o improvisado barco a motor de Ka”, também aparece representado em uma das ilustrações de Natália. Feita de pinceladas livres e demarcadas, a ilustração parece conseguir reproduzir uma tempestade de dentro da quietude simplória da embarcação. Os pedaços de madeira sobrepostos, uma ou outra concha aqui e ali, alguns azulejos novamente ornamentais e delicados. Pelas vastas janelas da embarcação descortina-se o mundo e sua imensidão de água.

Em uma história de andarilhos, viagens, descobertas e fins de mundo, uma das ilustrações não poderia se esquecer dos velhos sapatos, gastos pelo caminho, que nos levam e queilustração 2 são por nós levados para desvendar as paisagens. Os traços simples a nanquim voltam a destacar-se nessa ilustração recorrente na história da arte. Impossível não recordar os sapatos tímidos, velhos e poéticos de Van Gogh, apenas à espera de que alguém os tome e com eles comece uma nova viagem.

No que talvez possa ser a representação daquele fatídico medo dos habitantes de que o manto que envolve as Ilhas d’água se rompesse, uma das ilustrações revela algo como uma malha, feita toda de fios entrelaçados, rompidos por um buraco por onde entra uma luz mais intensa, em contraste com o entorno imerso em fraca, ou quase nenhuma, luminosidade. Ou ainda, o buraco do desenho pode também nos fazer pensar nas “estrelas que eram buracos em um manto”, sob as quais viviam os habitantes desta ilha. “Nenhum destes rombos sendo como o sol, habitávamos um mundo sem sombras”.ilustração 1

As altas montanhas com picos de neve que distribuíam o calor para as suas bases e os arredores, e que compunham a paisagem destas ilhas, surgem imensas em uma alternância de luminosidade em duas outras ilustrações. Claras e escuras, elas trazem ao olhar vastidão, e se tornam ainda mais vastas quando o desenho retrata, bem pequena, na parte inferior, uma embarcação com dois viajantes, prestes a romper todas as distâncias que ainda os separam do mundo.

Em outra ilustração, a imensidão dos picos continua ocupando os planos principais do desenho, eles preenchem todo campo do olhilustração 4 (2)ar, em uma harmonia que segue escalas de preto, cinza e branco. Não há clara percepção de começo ou fim, o desenho é um continuum e, nas suas bordas, permanece sempre ali, improvável, o rastro deixado na água pela minúscula embarcação, singela e forte imagem para o rastro deixado pelo andarilho nas pessoas e nos lugares por onde passa, transformando-se a partir da experiência do outro.

É neste sentido, que as ilustrações de estilo e técnica muito bem demarcados de Natália Gregorini são como uma outra viagem dentro dessa fantástica viagem empreendida até as Ilhas d’Água. Imagens que, de alguma forma, vale a pena reter, ou lembrar, vestígios de lembrança na errância.

“O andarilho deve fazer de cada espaço o lar. Confiar no amor e, por mais que as coisas mudem, manter alguma convicção do que um dia viu e o motivou a sair. Deve saber quais as poucas coisas não mutáveis
e reservar para si algo de inegociável”. (p. 90)

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2º canto: ‘Espelho d´Água’, de Sarah Valle, com ilustrações de Natália Gregorini

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Interior de Juton – ilustração de Natália Gregorini

“Querendo ir além das bordas, caíram nas águas do Espelho, turvando-o. Então Io fez emergir as ilhas, para que não se afogassem. Com o tecido de seu coração os cobriu para que dormissem. E o tempo passou a lhes por colares nos pescoços.” (p. 82)

O segundo canto que nos chega da coleção de obras inéditas “Galo Branco”, que está sendo publicada pela Editora Medita, foi construído ao longo de sete anos pela escritora Sarah Valle e agora será lançado com ilustrações de Natália Gregorini, trata-se da narrativa O Espelho d’ Água.

Primeiro romance da coleção, este Espelho d’ Água anuncia, logo no início, em uma prosa que se desfia de forma poética: “Não é uma história fácil a que tenho de contar”, como quase nunca elas são; e dedica-se, em um gesto que resume algo de seu espírito, “aos andarilhos des[vendadores]”. O leitor passa então a conviver com um cenário da inundação do arquipélago denominado por seus habitantes como Ilhas d’Água.

Diante da sua inesperada e improvável sobrevivência, os habitantes do lugar são obrigados a lidar com o desaparecimento do seu mundo, de tudo que até então era a sua realidade, o que os leva à desconfiança em relação a todas as outras. O tema do fim do mundo se desdobra no romance em uma linguagem delicada, detalhada e, ao mesmo tempo, pungente. Aos poucos, somos inseridos em um quase outro mundo e vamos nos impregnando pela curiosa arquitetura dessa ilhas desaparecidas, tornando-nos também um pouco andarilhos diante desse romance que se faz nas e pelas andanças, um romance andarilho que acontece na travessia. 10387473_942903869065298_1477474016059895551_n

“O fato de Ilhas d’Água terem sido cobertas pelo manto, o qual delimitava seu perímetro, é responsável pelo maior estranhamento quanto ao modo de vida dos seus náufragos, bem como pela curiosidade quanto a seu tom pálido e sua aversão ao sol. Vivíamos sob estrelas que eram buracos em um manto. Nenhum destes rombos sendo como o sol, habitávamos um mundo sem sombras”. (p.13)

Além de uma arquitetura específica, de um modo de vida e pensamento que o romance recorta diante do leitor, ele também busca transmitir àquele que escuta a história a especificidade de sua linguagem. O narrador, habitante da ilha que já não existe, não fala como os outros, sua linguagem é torcida, de ritmo oscilante, passagens obscuras.

E, dessa forma, vai sendo tecida a partir de personagens como “Kaph”, ou simplesmente “Ka”, a malha fantástica e, ao mesmo tempo, realisticamente humana desta história de viagens, lugares desconhecidos, distantes, sobreviventes improváveis, dessa história de dilúvios, lixo, “paraísos fiscais”, que nos recorda a nossa própria história, as nossas ilhas já naufragadas, o nosso mundo, seus começos e seus já iniciados fins.

Como escreve o poeta André Nogueira no texto de apresentação do livro, “a própria página literária, já sendo um leito em que se depositaram os sucessivos sedimentos de destruições poéticas, nos traz essas letras que sobreviveram, agrupadas como caranguejos, enquanto a escritora, ao longo de seus anos de juventude, esfarelou um castelo e o reergueu, inúmeras vezes, na areia da praia. Neste momento, em que Sarah Valle acaba de publicar seu primeiro livro de poemas Sarah Valle/Coleção Kraft (Cozinha Experimental, 2014), este romance também vem à tona, inspira fundo, e nos traz junto ao patamar dessa nova onda literária que a Editora Medita projeta sobre a calmaria de nossa língua de navegadores”.

“O menor dos quintais cheira a coco das roupas. Ao fundo, canteiros guardam flores comuns. Um menino recolhe pétalas e as coloca sobre os dedos fingindo serem esmalte. A moça estica as sandálias, imersas sob um fio que vaza. No espaço pequeno e infinito do quintal, o menino mantém-se ao seu redor, perto o suficiente para ouvir. De hora em hora, fitam o céu e assim farão até que venha o fim de uma tarde sem amanhã e sem tédio. Abrem um livro que trata de cedros, terebintos, nevoeiros distantes e espécies desconhecidas. Perdido entre olmos e oliveiras, há um lago. E, em seu meio, um casebre. Dentro, uma sala com almofadas. Ciprestes queimam, janelas embaçam. Caso algum dedo as toque, é capaz de congelar. Impossível sair agora. Portanto, façamos café ou chocolate. Aqui é um lugar para se ouvir uma história!” (p. 12) 10636914_957138527640447_7282516467813621377_o

Sarah Valle assinou 100 exemplares artesanalmente produzidos com tinta tóxica – Sarah Valle – Poemas – pela Coleção Kraft da Editora Cozinha Experimental em 2014. O Espelho d´água, narrativa escrita e traduzida ao longo de sete anos, ganhou sua milésima noite com o apoio doProAC Nº 30/2012. Em 2015, é lançada através da catapulta ProAC N° 34/2014 aos beijos com a Coleção Galo Branco.

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Natália Gregorini , com extensões de braço dadas em pincéis e lápis, conhece os mundos. Mundos de águas e de terras distantes, onde o céu é manto de quem consegue vê-lo.