Pedro Spigolon: “Não se conformar com a miséria: esse deve ser nosso maior crime”

CARLOS DRUMMOND 4No seu tão conhecido e cada vez mais necessário poema “A Flor e a Náusea”, o poeta Carlos Drummond de Andrade oferece ao leitor a imagem de uma flor, um tanto desbotada, tímida, cujas pétalas não se abrem, visivelmente feia, que, apesar de sua “forma insegura”, nasceu na rua, no meio do burburinho da cidade.

“É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”

t-s-eliotEsse último verso do poema, aparentemente simples, diz muito sobre o fazer poético nesses tempos já chamados por Hölderlin de “tempos de pobreza”, e por T.S.Eliot no seu emblemático e decisivo poema “The Waste Land” de “terra devastada”.

A questão da modernidade sempre se impôs à poesia, inserindo nesta última seus temas e questões e, ao mesmo tempo, transformando-a. A poesia passa a tematizar a modernidade a partir principalmente da transição do século XIX para o século XX, e isso inclui falar dos traumas, dos choques – para lembrar a expressão de Walter Benjamin quando estuda e comenta a obra de Charles Baudelaire – dos processos em que o sujeito se vê imerso no tédio, no nojo e no ódio, espreitado pelas melancolias e mercadorias, como acontece com o eu lírico do poema drummondiano.

O próprio poema de Drummond expõe, de forma crua, a situação do poeta em uma dada época, dizendo:

“O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse”.

O poeta e sua época, ou, poderíamos dizer, o poeta diante de sua época, o poeta entediado diante das coisas frias, que surdas silenciam, e que, apesar de, e aqui talvez resida o movimento essencial, se depara com a flor mais improvável, mais impensável, e recupera de novo o espanto diante de si mesmo e do mundo.

11178298_1583907831894972_8865108173844791058_nO primeiro livro da Coleção Galo Branco, que está sendo publicada pela Editora Medita, intitulado “Espanto” e escrito por Pedro Spigolon, traz justamente no título essa capacidade de espantar-se, que parece carregar consigo a resistência, a sobrevivência da flor, da poesia improvável, mas que está ali.

“Espanto”, que teve lançamentos realizados na cidade de Campinas e também em Araras, interior de São Paulo, de onde é natural seu autor, e todos os livros que serão publicados dentro da mesma coleção depois dele, são vozes literárias que podemos pensar como imediatamente sobreviventes, isso porque são entoadas em uma época onde as condições da modernidade e do ser moderno já foram levadas ao extremo. São todas vozes cúmplices de um crime que se deve cometer: aquele de fazer poesia justamente ali onde tudo parece negá-la, sendo a voz desconcertante, e não a voz confortável, encarando o feio, o repugnante, ou, como diria Agamben, a treva de nossa época, para então sermos, de fato, contemporâneos dela.

Pensando em tudo isso, perguntamos a Pedro o que significava, para ele, espantar-se e fazer poesia em uma terra que, como diria T.S.Eliot, é, cada vez mais e por diversos motivos, uma “terra devastada”. Ao que ele nos respondeu:

21099_501351366596401_1341745603_n“Não acho que a poesia seja sagrada ou pura. Que ela irá nos salvar de nossa devastação. Acredito que Eliot também não pensava assim. A poesia e a arte são sujas, podem estar em qualquer lugar, principalmente onde há mais devastação ou desolação. Talvez por isso ele tenha escrito esse poema. E nada do que está ali evitou uma segunda guerra, ainda mais feroz, destruidora e desumana. O que o poema pode fazer é criar uma voz para essa desolação: assim podemos entendê-la melhor, senti-la sem a naturalidade que a vida e o hábito nos obrigam. Antes, o que era fragmento, destruição, pedaço, torna-se um todo que é capaz de dizer algo –ainda que seja completamente caótico, com multiplicidade de vozes como é o caso desse poema. Assim como Eliot entendeu melhor sua depressão e loucura depois de ter escrito esse poema, a Terra também entendeu melhor a destruição e o abandono em que se encontrava. Por vezes, ouvir dizer dos mortos não é o bastante para nos arrancar da letargia, mas ler que plantamos defuntos no nosso jardim e que aguardamos a primavera, esse mês cruel de abril, para ver brotar suas flores fétidas nos faz cúmplices da devastação, nos faz iguais e irmãos de todo o abandono em que estamos jogados. Acredito que fazer poesia hoje signifique exatamente isso: conseguir arrancar-nos de nossa sonolência e nos espantar com o que sempre esteve aqui, mas de tão óbvio ou tão cruel, não vemos ou nos recusamos a ver. Não acredito numa poesia fofa, numa poesia de algodão doce. Do amor – com “a” minúsculo- do menininho pela menininha, ou contrário. O que não significa que deixe de escrever poemas de amor ou não fale sobre a inocência da criança. Mas que a excessiva fofura mantém o mundo do tamanho que ele está –talvez até o diminua- e o que nos interessa é criar formas que possam aumentar a possibilidade de existência no mundo. De olhar para nós mesmos e desejar nos superar de alguma forma. Acho que é não se conformar com a miséria: esse deve ser nosso maior crime e motivo de nosso contínuo espanto”.

“Espanto”, de Pedro Spigolon e fotografias de Pedro Spagnol, já está à venda na lojinha da Editora Medita

Sem títuloPara aqueles que não puderam comparecer ao lançamento do “Espanto”, primeiro livro da Coleção Galo Branco, realizado na cidade de Araras no último dia 16 de maio, e para quem também não poderá comparecer ao lançamento do livro em Campinas, que acontece na quarta-feira, 20 de maio, na sede da Editora Medita, o livro de poemas de Pedro Spigolon, com fotografias de Pedro Spagnol, já está à venda pela internet na página da Editora Medita.

O livro pode ser adquirido por R$ 10,00 (acrescido do valor do frete) e o exemplar será entregue com a assinatura do autor.

Espanto é composto por cerca de 30 poemas divididos em três partes: “Eternidade Abandonada”, “Propaganda do Inferno” e “Espanto nosso de cada dia”, em que aparecem temas como o cotidiano, a infância, a vida, a morte e o tempo, trabalhados por uma linguagem musical e imagens singularmente criativas, pensadas e construídas, com expressiva carga semântica e simbólica.

Um diálogo muito interessante com os poemas de Pedro Spigolon é estabelecido pelas fotografias de Pedro Spagnol, que nos chegam entre um poema e outro do livro, e trazem aquela estética própria conseguida pela exploração do preto e branco, dando forma a cuidadosas composições que transmitem algo de absurdo, de sutilmente espantoso.

A Coleção de obras inéditas “Galo Branco” foi contemplada pelo Edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural (ProAC) “Concurso de Apoio a Projetos de Publicação de Livros – coleção de obras inéditas – no Estado de São Paulo”, e publicará 10.500 livros, divididos em sete títulos inéditos, que serão lançados em cinco cidades do interior do estado de São Paulo, de maio a dezembro de 2015.

“Ergueram uma muralha no horizonte
de nosso coração enraizado.
Por todos os lados
as pedras tapam
a imensidão furtada
de tuas raízes soníferas.
Onde estará a vastidão do mundo
já que tu és tão pequeno?”

(Pedro Spigolon, Espanto, p. 17)

“Incendiar formigueiros quando criança é revelar aos
adultos que a ordem não passa de um subterfúgio para
abolir a liberdade em nome da decência. De quem?”

(Pedro Spigolon, Espanto, p. 35)

Lançamento do livro ‘Espanto’ em Campinas terá quatro apresentações musicais

Revirei sua carne
como quem desenterra um cadáver.
Provei de suas entranhas
no desencontro dum mês a gosto.
Quem se esqueceu do sal?
Quando envenenaram nosso cio?
Tentei avisar da queimada
Depois preferi que não soubesse.
embrulhei-me num relâmpago.
Chovi. Fiz o mato
matar nossa horta.

(Pedro Spigolon, Espanto, p. 30)

11267292_10206811198542394_1489967349_nO livro Espanto, de Pedro Spigolon, com fotografias de Pedro Spagnol, primeiro livro da coleção de obras inéditas Galo Branco, que está sendo publicada pela Editora Medita, terá mais um lançamento em Campinas, além de um na cidade de Araras, onde nasceu seu autor. O lançamento em Campinas acontecerá no próximo dia 20 de maio, quarta-feira, às 19h, na sede da Editora Medita, localizada na Vila São João, em Barão Geraldo.

Além de literatura, o lançamento também terá música com apresentações de Waldomiro Mugrelise, Vítor Wutzki, Gabriel Edé e Augusto Meneghin, este último autor do quatro livro que compõe a Coleção Galo Branco.

Espanto é composto por cerca de 30 poemas divididos em três partes: “Eternidade Abandonada”, “Propaganda do Inferno” e “Espanto nosso de cada dia”, em que aparecem temas como o cotidiano, a infância, a vida, a morte e o tempo, trabalhados por uma linguagem musical e precisa.

Sem título 2Um diálogo muito interessante com os poemas de Pedro Spigolon é estabelecido pelas fotografias de Pedro Spagnol, que nos chegam entre um poema e outro do livro, e trazem aquela estética própria conseguida pela exploração do preto e branco, em outras palavras, da ausência e da presença de todas as cores. Longe de parecer registrar meros acasos ou cenas do cotidiano, as fotografias registram cenas que dão a impressão de terem sido cuidadosamente pensadas e construídas, assim como se constrói um quadro, um poema.

Tais cenas fotografadas trazem em comum algo de onírico, a tocar o fantástico, e, por isso, geram certo espanto em quem as olha, mesmo uma perturbação. Algumas fotografias exploram o movimento da água, sua luz, sua composição diáfana que, no entanto, não deixa de turvar a cena capturada. Nem sempre é fácil distinguir na imagem os elementos representados. E talvez isso nem esteja em questão, apenas a experiência de pensar a respeito deles.

11138521_594359080667320_4350384782470897820_nUma das composições mais interessantes de Pedro é a que apresenta um prato de comida, ao lado do qual repousa um copo de vinho. Há uma imobilidade absurda na imagem que, ao mesmo tempo, se perturba pela indefinição em relação ao objeto contido no prato. O que se tem seria algo como uma antropofagia, ou um convite a ela, feito pela imagem fotográfica.

Mesmo quando parece registrar um gesto comum, como simplesmente segurar um animal nas mãos, as fotografias de Pedro expandem esse gesto para outras sensações, seja aquela provocada pela visão do animal – certo estranhamento, incômodo ou mesmo fascínio – seja o simples pensamento sobre o que seria de fato aquele animal ali representado, um besouro, pode ser. As imagens deixam pistas, mas não certezas.

foto 1Talvez, por isso, espantem quem as vê. É o caso da fotografia que captura o movimento da língua de uma mulher com a boca entreaberta. Na primeira vez que se olha pode ser uma mulher, depois, ela já pode ter virado cobra, talvez.

E a imagem ainda nos revela uma cena que parece saída de um filme de Buñuel, ou de uma tela de Magritte, em que o fundo embaçado enfatiza a cena que vem no primeiro plano de um peixe cuja extremidade da boca aponta, seguindo a mesma linha imaginária, para a ponta de uma tesoura suspensa por uma outra linha, dessa vez visível.

foto 2Não há muito o que dizer sobre essa fotografia, assim como não há muito o que dizer sobre certos sonhos que, no entanto, parecem tão reais que quase poderiam sê-lo. 

No lançamento, o público poderá comprar o livro Espanto que estará sendo vendido por R$ 10,00 e conversar com o autor, Pedro Spigolon, que estará presente.

A Coleção de obras inéditas “Galo Branco” foi contemplada pelo Edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural (ProAC) “Concurso de Apoio a Projetos de Publicação de Livros – coleção de obras inéditas – no Estado de São Paulo”, e publicará 10.500 livros, divididos em sete títulos inéditos, que serão lançados em cinco cidades do interior do estado de São Paulo, de maio a dezembro de 2015.

A Editora Medita fica na R. Maria M Selim Zanchetta,22, Vila São João, Campinas, SP.

Sem título

Primeiro livro da Coleção Galo Branco é lançado na cidade de Araras

Cartaz_Espanto

No próximo dia 16 de maio, sábado, às 20h, acontece o lançamento do primeiro livro que compõe a Coleção Galo Branco na cidade de Araras, interior de São Paulo. Trata-se do livro Espanto, de Pedro Spigolon, com fotografias de Pedro Spagnol.

O lançamento acontecerá no Centro Cultural Leny de Oliveira Zurita e terá, além da presença do autor, apresentação musical com Guima e Carandina, e uma exposição de fotografias de Pedro Spagnol que ilustram o livro.

Espanto é composto por cerca de 30 poemas. A sua poética busca espantar, como que afugentando os leitores de seu bem-estar, deslocando-os internamente de suas confortáveis acomodações. A seu modo, o livro deseja remover a letargia do olhar acostumado com as possibilidades de um mundo escasso.

Os versos que constroem o livro passando pelo cotidiano, pela infância, pelo amor, a vida, a morte, a passagem do tempo, dividem espaço e são complementados pelas fotografias de Pedro Spagnol. De aspecto onírico e poético, as imagens se mostram algumas vezes fluídas e marcadas por um tom do surrealismo, do absurdo, explorando as possibilidades do preto e branco.

No lançamento, que é aberto ao público em geral, o livro será vendido a preços populares e o público terá a oportunidade de saber mais não só sobre esse primeiro canto da Coleção e seu autor, como também sobre o projeto da Coleção Galo Branco como um todo, aproximando-se de um novo e crescente mercado editorial.

A Coleção de obras inéditas “Galo Branco” foi contemplada pelo Edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural (ProAC) “Concurso de Apoio a Projetos de Publicação de Livros – coleção de obras inéditas – no Estado de São Paulo”, e publicará 10.500 livros, divididos em sete títulos inéditos, que serão lançados em cinco cidades do interior do estado de São Paulo, de maio a dezembro de 2015.

A realização e concepção da Coleção Galo Branco é da Editora Medita, uma pequena editora independente que atua no mercado editorial há mais de dois anos. A editora está sediada em Campinas, mais especificamente no distrito de Barão Geraldo.

Canto 1: “Espanto”, de Pedro Spigolon, com fotografias de Pedro Spagnol

Coleção Galo BrancoÉ do livro Espanto, de Pedro Spigolon, com fotografias de Pedro Spagnol, que sai o primeiro canto da Coleção Galo Branco. Com lançamento marcado para o dia 16 de maio, no Centro Cultural Leny de Oliveira Zurita, na cidade de Araras, interior do estado de São Paulo, às 20h, Espanto é, nas palavras do poeta Gil T. Sousa, que escreve a sua apresentação, “um exercício notável de pureza poética. Há nele muito mais que mestria literária, há nele uma matemática de humanidade que concentra todas as linhas ancestrais do ser (o amor, o medo, a vida, a morte, o visível e o invisível)”.

Espanto é um livro com cerca de 30 poemas. A sua poética busca espantar, como que afugentando os leitores de seu bem-estar, deslocando-os internamente de suas confortáveis acomodações, ao mesmo tempo em que os espanta por meio da descoberta de novidades naquilo que sempre cercou as suas atividades. A vida é imersa no cotidiano, não há espaços para vislumbres e sonhos. Os acontecimentos nos atravessam como repetições monótonas e infrutíferas. É assim que a queda de Ícaro – o homem que almejava alcançar o sol – é representada na tela de Brueghel, como mais um elemento sob o império do cotidiano a marchar para o hábito.

Sobre o quadro de Brueghel, há um poema de William Carlos Williams, “Paisagem com queda de Ícaro”, onde os versos falam justamente da indiferença do mundo e das pessoas com seus afazeres, sua ocupações, seus destinos, em relação a algo extraordinário, mas que não passa de um pequeno detalhe despercebido.

Segundo Brueghel
quando Ícaro caiu

era primavera

um lavrador arava
sua plantação
e toda a pompa

2012_04_13_00_07_240

da estação
despertava e tilintava
bem perto

a beira-mar
tomava conta
de si

suando no sol
que derretia
a cera das asas

um detalhe banal
perto da costa
um esguicho

passou despercebido
este era Ícaro
se afogando

O livro Espanto não tem pretensões épicas ou mesmo motivações românticas, mas, a seu modo, deseja remover a letargia do olhar acostumado com as possibilidades de um mundo escasso. Neste sentido, se apresenta dividido em três partes: “Eternidade Abandonada”, “Propaganda do Inferno”, e “Espanto nosso de cada dia”. Já no poema de abertura da primeira parte, os versos lançam um apelo e dizem: É urgente que se lembre da chave É urgente que se abra a janela É urgente a nossos olhos de jabuticaba que o sol os banhe com sua candeia e os povoe por dentro com fogo que o mundo os tome pela mão e os prove do doce desejo de eternidade Sem título 2

Em precisa musicalidade verbal e refinada arquitetura poética, os versos, como melodias, atravessam alguns temas bíblicos e os atravessam de imagens cruas do cotidiano, fazendo também o processo inverso. Assim temos: […] o Teu corpo, Senhor, é uma escadaria interminável que se pode guardar na despensa da cozinha e às vezes encontrá-lo distraído lavando a alface com a barriga encostada na pia, Entre os poemas e suas figurações do abandono, surgem fotografias de Pedro Spagnol, oníricas e intensamente poéticas. Imagens fluídas que exploram a dinâmica da água e a pureza de tantas possibilidades do preto e branco. Como diz um dos poemas, as primeiras imagens que aparecem no livro parecem refletir “o desejo de desaguar” que do rio se transfere aos amantes. Em meio aos ecos de uma tentativa inútil de um aviso de queimada, a primeira parte do livro termina com as instruções de desuso do poema abandonado que, entre outros lampejos poéticos, nos recomenda: “Estender os olhos no varal para secá-los rapidamente e justificar a amargura pela ausência de lágrimas”. 11138521_594359080667320_4350384782470897820_n

Em “Propaganda do Inferno”, antes das palavras, o olhar se detém sobre a imagem de um prato de comida e de uma taça de vinho ao seu lado. Não se pode distinguir muito bem o conteúdo do prato, mas se pode imaginá-lo e até comê-lo. Há uma certa perturbação na quietude da imagem, talvez um espanto a prolongar-se nos poemas que seguem e conduzem a uma outra fotografia em aparente diálogo com a anterior. Os poemas dessa parte constroem suas imagens de inferno, entre elas, a de uma realidade em que […] adiando os dias, sequer poderemos caçar nuvens e ouvir o riso dos rios.  O acúmulo das catástrofes que se perfilam nesse poemas faz lembrar o poeta Murilo Mendes das “Metamorfoses”, a mesma musicalidade insistente, as mesma imagens belas e improváveis, o mesmo apelo inútil, o mesmo poema feito de ruínas, mas sobrevivente. Sem títuloE sobrevivente, o poema parece apontar para a capacidade do espanto, o novo e mais urgente “pão nosso de cada dia”.

Em uma certa pulsão de amor, vida, morte e infância, esses últimos poemas se espantam diante de si mesmos, diante do outro, diante do mundo, e se fazem imensos em imagens como essa: quando criança eu tinha a altura das árvores muito embora não me importasse com a sede das raízes bastaria que meus dedos se alongassem para furar algumas nuvens e apagar a lâmpada do sol Espantados diante do tempo, que nunca é o mesmo, os poemas se fazem, e fazem o poeta, e fazem o mundo. Os poemas de Pedro, combinados ao tom do absurdo e do surreal de algumas fotografias que com eles dividem espaço, nos fazem lembrar do absurdo que há em não se espantar diante do absurdo de simplesmente existir e, carregados de e pelo tempo, passar, fazendo-nos infinitamente e imediatamente Outro. 21099_501351366596401_1341745603_n

* Pedro Spigolon nasceu em Araras-SP no dia 16 de Abril de 1992, sob o signo do fogo. Quando criança teve catapora, como quase todas as crianças. Aprendeu a cavalgar no sítio de seu avô. Graduou-se bacharel em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas. Publicou poemas na revista literária euOnça e no Jornal RelevO. Já morreu diversas vezes nesta vida. Usa a poesia para dar corpo à sua Imaginação.