“Aceito a poesia em sua vertente criminosa – se é que pode haver outra”

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Jefferson Dias

“Imponho-me o desafio de perturbar o leitor, de desalojá-lo – de tornar-lhe manifesta a defasagem que há entre as palavras e as coisas”. Com essas palavras, o poeta Jefferson Dias, autor de “Silenciosa maneira“, terceiro livro lançado pela Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, perturba o seu próprio fazer poético.

Na pequena entrevista que se segue, Jefferson fala um pouco sobre o processo de construção do “Silenciosa maneira“, relacionando-o a dois outros livros seus, “Último festim” e “Qualquer lugar“. Na origem dos três, percebemos uma vivência experimental onde a palavra ocupa o lugar de um resíduo sempre certo, essa “máquina precária”, capaz de colocar em movimento “um projeto legítimo, que concilie a visão devaneadora e a recolha cerebral do mundo, de modo a patentear que toda realidade é uma construção lograda através do verbo”.

Jefferson se revela como um poeta que já fez algumas escolhas, entre elas a recusa do figurativismo e a percepção de sua insuficiência, a intempestiva atitude de, como poeta, “ir na contramão”, o que ele também chama, de forma não menos imersa em poesia, de aceitar esta última em sua vertente criminosa. Antes de conciliadora, a linguagem para ele deve deixar-se eletrificar, tensionando realidades distintas, o que não deixa de ser um gesto corajoso, e hoje raro, de colocar-se constantemente à prova.

“Os que me acusam de hermético, de anacrônico, de lusitano, acertam em cheio”, diz o poeta comprometido com o rompimento radical com o convencional. “É preciso aprender com Lautréamont!”, ele completa, em um esboço de toda uma poética concebida para ensurdecer, perturbar, tirar do lugar, gerando curtos circuitos, lampejos, incêndios que, imensos, enredam-se em uma ambígua silenciosa maneira.

Coleção Galo Branco: Como foi o processo de construção do seu livro “Silenciosa maneira”? Quando e por que ele começou a nascer?

Jefferson Dias: Em 2013 publiquei Último festim, livro cuja natureza não é senão a de uma coletânea. Os poemas que o integram vinham sendo escritos desde 2011, a partir de um entusiasmo com a linguagem que se deveu a três principais fatores, quais sejam: o estudo remisso das vanguardas europeias e dos modernistas brasileiros, uma oficina de criação poética com Claudio Willer e o conhecimento da poesia de Herberto Helder. Tal impulso, apesar de consistente, denotava apenas uma vontade embrionária no que tangia a um projeto – o que significa dizer que os textos dessa época, mesmo que não tenham sido originalmente escritos para compor um livro, acabaram por propiciar uma recolha orgânica.
Com o Silenciosa maneira ocorreu o contrário: havia, já, o delineamento de um projeto literário e o desejo de elaborar um objeto programaticamente fechado. Havia também uma inquietação relativamente à empresa prévia. Tanto é assim que a movimentação contrapontística já se faz notar desde os títulos – se no primeiro trabalho, ainda que anunciadamente baldado, o tom imperante era eufórico, quase galhofeiro, no segundo, como era de se esperar, ocorre a introversão, a reavaliação da técnica e o intento de ressignificação da parte, agora ante um corpo mais bem formado. A intitulação é importante à medida que o processo que a perfaz indica itinerário: o festim só se afigura ultimado porquanto a fatura silenciosa já se deixava entrever desde o primeiro comprometimento. Escolhi o nome do primeiro livro enquanto escrevia o segundo. Convém, então, citar o descompasso entre o tempo da escrita e o da publicação; os poemas de Silenciosa maneira datam de 2012, e sua vinda a lume coincide com o remate de um terceiro volume, Qualquer lugar. E esse interregno se constitui formativo, uma vez que ponha em relação os três livros ainda no prelo, quer dizer, há uma ininterrupção – e não há como falar de um deles sem considerar os outros.
Podemos mesmo falar em trilogia, de modo que, se apelarmos às limitações paregóricas da exegese, teríamos o seguinte: Último festim e Silenciosa maneira são, respectivamente, a tese e a antítese – Qualquer lugar, a síntese. Aliás, o projeto se faz mais evidente se tivermos em conta este último livro; solve-se, portanto, qualquer questão acerca de genealogia. Nesse livro, o poeta oscila libertinamente: ora é o poète assassiné, ora quer, como se lê no “Prefácio”, “dizer ‘eu’ como dissesse tudo”, porque sabe que a vida é invenção forçosa e desesperada, e ante tal absurdo – ante a morte – qualquer projeto é deitado abaixo. Daí o título: viver é um trânsito, busca infinda que se perfaz em si, parte-se de um lugar qualquer para se chegar a qualquer lugar, apenas pelo passatempo, apenas porque o gênero humano não aguenta a finitude de tudo. A palavra é só o que resta, máquina precária que será, porém, sempre “Implacável e máximo obstáculo”, como está dito no poema “Suicidamente”, ao afã organizacional do homem. Ainda assim o poeta canta as “casas cárneas”, a “terra da espada”, a vida cotidiana, as cidades, o café para fumar. Qualquer lugar, em suma, tenta afirmar imensamente a resignação ante o projeto, ante o movimento – e, consequentemente, também a liberdade criadora irrestrita ante o fato de que todos os caminhos levam a um único fim.
Tomando-se Qualquer lugar por síntese, este dá a ver motivos e causas que atravessam a sua gênese e a dos dois livros anteriores: busco erigir – mediante fábrica experimental, isto é, vivência experimental – um projeto legítimo, que concilie a visão devaneadora e a recolha cerebral do mundo, de modo a patentear que toda realidade é uma construção lograda através do verbo. Imponho-me o desafio de perturbar o leitor, de desalojá-lo – de tornar-lhe manifesta a defasagem que há entre as palavras e as coisas.

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Retrato de Lautréamont

GB: Uma das características que logo de início se nota no seu livro é a escolha de um vocabulário muito específico – que não economiza em termos científicos, nem mesmo em palavras que podemos ver como perturbadoras ou mesmo provocadoras do leitor e da própria poesia – qual seria a razão da escolha dessas palavras? Que papel elas cumprem em “Silenciosa maneira”?

JD: Acredito que a poesia possibilita uma experiência genuinamente genesíaca. Não se trata de escapismo, tampouco de redenção, mas de desenredo. O figurativismo, apesar de seus belos produtos, e ainda que estilizado, afigura-se limitado – e por isso não serve, porque só reproduz. O meu dever pessoalíssimo, que não passa de satânica vaidade, e que nada tem de transcendental, é o de ir, evidentemente, na contramão; isto é, aceito a poesia em sua vertente criminosa – se é que pode haver outra.
A poesia passa, necessariamente, pela aproximação de realidades distintas, pela eletrificação do léxico. Todavia percebo entre os meus coetâneos uma tendência pujante, que é a de produzir através de uma linguagem meramente mediadora da realidade, tendência essa animada, a meu ver, por um desejo, intimamente afinado com o nosso tempo, de fazer sentido, de compreender e ser compreendido rapidamente; isso pertence ao âmbito da prosa – e para concordar com Herberto Helder (que, por sua vez, concordou com Octavio Paz), a prosa é uma corrupção da poesia. Surpreende-se, não raro, prosa escrita em verso.
Os que me acusam de hermético, de anacrônico, de lusitano, acertam em cheio; o poema deve ser um sismo; assim, para lográ-lo, lanço mão de alguns expedientes, que se revelam, sobretudo, na escolha vocabular. A poesia encerra em seu cerne o rompimento com o convencional, uma atitude levada a efeito de nenhum outro modo senão radicalmente – é preciso aprender com Lautréamont! Meu desígnio é, portanto, a obtenção do objeto poético por meio do incômodo, do estranhamento; ir na contramão consiste justamente nisso: a poesia deve ser truculenta, jamais pragmática.

GB: A poesia parece uma personagem decisiva nos seus poemas que, a todo momento, voltam suas imagens para ela, assim como para certa melancolia contínua, uma morte sempre à espreita, um medo igualmente vigilante. Seu livro poderia talvez ser visto como um exercício de autocrítica da poesia feito pela e na própria poesia? Seria esta, ao lado também de um exercício tensivo onde a beleza se deixa atravessar pela podridão, uma das questões fundamentais (em processo de formulação e construção) da sua poesia?

JD: Respondo sim a ambas as perguntas. É natural, tendo-se em conta o que disse acima, que o poema se volte sobre si. O metapoema, para além de ser um exercício de reflexão, é, também, um exercício de estilo, um modo de alcançar o silêncio. A carência de referência externa provoca o abalo por meio da afirmação da autonomia do texto. Já no âmbito da temática, o poema pode desacomodar o leitor – ao mesmo tempo em que instaura o vaticínio – se desmitificar o mito e se mitificar a rotina. A morte e o medo dela constituem tabu universalmente glosado; no entanto, desnudar-lhe microscopicamente as minúcias, tanto sua crueza, quanto sua vulgaridade, é o que faz do poeta um vate. Obviamente, o tratamento estetizado do assunto pressupõe o engenho – e é isso que faz de mim um poeta.
A morte, bem como a negação do alicerçamento metafísico de um sentido à vida e de uma ética, perpassam o meu comprometimento. O meu estilo se constitui, fundamentalmente, a partir da exposição do absurdo de uma vida sem significação, exposição essa levada a efeito com a consciência de que deus e de que a palavra são convenções e, como tais, passíveis de subversão por meio do exercício estético. Qualquer beleza admite, assim, a putrefação – e vice-versa. O efeito imediato de tal opção, relativamente ao leitor, é a intensificação da fruição do poema por via do contraste.

O homem é um trânsito até à loucura da poesia.
A vida é uma meta ou qualquer lugar.

A necessidade de futuro:
O líquen oscilando sob a calcinação da luz,
Porquanto há o homem,
Apenas porquanto há o homem,
A esfinge humana que se solve e se coagula a si,
Que tem esperança e que se devora a si,
Porquanto há que haver o recreio,
A sanguinolência metafísica.
A necessidade do futuro: a desnecessidade do futuro.
Não há razão por detrás das estrelas,
Há apenas a vida
E a razão
E a mentira diária respirando alta
Até à loucura.
O desprezo nédio, a comiseração adelgaçada:
Não são senão dois pratos de um mesmo banquete.

A vida é um acaso refugindo fundo:
Buscar e rebuscar um cancro para a cura.

(trecho do poema “Qualquer lugar”, p. 78)

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‘Silenciosa maneira’, de Jefferson Dias, estará à venda na lojinha da Editora Medita

imagem livro“Silenciosa maneira”, de Jefferson Dias, o terceiro livro lançado pela coleção de obras inéditas Galo Branco, publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC, estará à venda pela internet na lojinha da Editora Medita pelo valor de R$ 10,00.

O livro de poesia de Jefferson Dias será lançado no próximo dia 19 de agosto, quarta-feira, no Teatro de Bolso da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), a partir das 17h. Os livros que forem vendidos pela lojinha até a data do lançamento serão enviados com a assinatura do autor. Vale lembrar que os livros anteriores lançados pela Galo Branco, “Espanto”, de Pedro Spigolon, e “O Espelho d’água”, de Sarah Valle, também estão à venda na lojinha, podendo ser adquiridos, os dois, pelo valor de R$ 15,00.

O evento de lançamento terá um recital e uma homenagem ao poeta português Herberto Helder, importante influência para o livro de Jefferson Dias, onde o autor parece buscar o universo da mitologia edipiana e da imagem da mãe, que atravessa de forma mais expressiva a segunda parte de “Silenciosa Maneira”, sendo o poeta português citado literalmente em um dos poemas.

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Jefferson Dias

Um livro inicialmente difícil e perturbador, “Silenciosa maneira” coloca tanto a poesia quanto o leitor em lugares privilegiados, sendo a primeira constantemente pensada, e o segundo constantemente interpelado, provocado. Um vocabulário cientificista e detonador de certa repulsa ou estranhamento atravessa os poemas, que nos falam de cancro, mênstruo, esperma, leite, cuspe e gangrena. Ao mesmo tempo, algumas imagens dos poemas se desdobram em elevados instantes de reflexões metafísicas, existenciais, colocando a morte e o medo como presenças fundamentais. Sobretudo, no livro há tensões entre materialidade e metafísica, entre festins e solidão, entre o poeta – esse ser dos paradoxos – e o poema – esta fantasmagoria – entre o eu e o outro.

Como disse o autor do prefácio do livro e também professor de literatura na UFSCar, Wilson Alves-Bezerra, em entrevista concedida ao blog da coleção Galo Branco, “Jefferson Dias, seguindo a trilha de Augusto dos Anjos, opta por ser o poeta-corvo, aquele que lança imprecações contra quem se aproximar de suas páginas […] urdindo sua poética de modo bastante pessoal e promissor”.

O sexo macio e arrefecido pelo lado de dentro,
O pudor e a obscenidade metidos dentro
De uma porção apanhada e enrolada de cabelo feminino,
Um tilacino com tiles em todas as letras de um braço feminino,
A estria negra que entope as narinas,
Um metal terno na irrupção das narinas,
Desejar uma vileza dentro da língua fraterna,
Lamber o silêncio na face fraterna
Docemente entalhada na sobrancelha pouco densa e pornográfica,
Desejar um seio em outro seio sobre a madeira pornográfica, […] (p. 28)

(trecho do poema “Voz”)

Jefferson Dias opta por ser o ‘poeta-corvo’, diz Wilson Alves-Bezerra

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Fotografia de Wladimir Vaz

“A escolha de vocabulários em Silenciosa Maneira coloca o corpo em primeiro plano, um corpo orgânico e transbordante de humores e secreções, um corpo aberto ao olhar, à doença e à morte”. Esta é uma das reflexões feitas por Wilson Alves-Bezerra a partir do livro Silenciosa maneira, de Jefferson Dias, terceiro livro a ser lançado no próximo dia 19 de agosto, em São Carlos, pela Coleção de Obras Inéditas “Galo Branco”, publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC.

Na entrevista que segue abaixo, Alves-Bezerra, que também é autor do prefácio do livro de Jefferson e professor de literatura na UFSCar, fala da forma específica com que o autor trabalha no seu livro temas que atravessam a poesia ocidental, como morte, medo e melancolia. O corpo colocado em primeiro plano, a interpelação do leitor, o tom de provocação, são lembrados por ele como elementos que conferem singularidade a essa poética.

11221844_627899710646590_1955553963718315823_nBezerra também detalha, de forma bastante clara, as possíveis influências que autores como Nietzsche, Freud, Augusto dos Anjos e o poeta português Herberto Helder tiveram nessa poesia que se tensiona diante dos abismos, deixando entrever por entre suas imagens a “certeza da morte, a parceria com a morte, o exercício da morte e, claro, a própria morte”.

Diante de um país que, nas palavras de Wilson Alves-Bezerra, tem sido “de mais poetas que leitores de poesia”, ele fala de Jefferson Dias como alguém que vai urdindo sua poética de modo bastante pessoal e promissor, exercendo o papel do poeta-corvo, sendo ele mesmo aquela presença perturbadora e enigmática do poema de Poe que, dizendo apenas poucas palavras – “nunca mais” – parecia nelas fazer conter todas as outras.

Galo Branco: Entre as grandes presenças deste “Silenciosa maneira”, livro de Jefferson Dias, algumas se destacam, como aquela do medo, da melancolia e da morte. Qual seria a forma específica com que o livro aborda esses temas que atravessam a poesia desde sempre? Em outras palavras, como eles nos chegam nesse livro de poesia contemporânea?
Wilson Alves-Bezerra: Os temas do medo, da melancolia e da morte, como você diz, são onipresentes em nossa tradição da poesia ocidental; a singularidade de Jefferson Dias, como no caso de todo bom poeta, reside na forma com que os trabalha, em como os faz funcionar em sua poesia. Vejamos um exemplo: a escolha de vocabulários em Silenciosa Maneira coloca o corpo em primeiro plano, um corpo orgânico e transbordante de humores e secreções, um corpo aberto ao olhar, à doença e à morte: “Abalançar o corpo aberto: / Ressaber com – a presença aberta.” Este corpo, destituído de sua condição divina e social, se torna objeto de frequentação, observação e putrefação. A obscenidade do corpo aberto também funciona em coro com outros elementos, como a interpelação ao leitor; o poeta põe em cena a falência geral da existência humana. Se há melancolia e medo, há também um gesto crucial do poeta de entregá-los ao leitor, sob a forma de provocação. O medo, funcionando como antecipação de algo funesto que possa vir a acontecer, já serve ao poeta para legar o papel de verdugo ao leitor: “Eu abro as mãos / E não há arrependimento, / Apenas há dissimulação. / Matai-me.”, diz ele, já no poema inicial. Para ensaiar uma comparação imagética, se no século 19, o poema “The Raven”, de Poe, nos assombrava com a presença funesta que adentra pela janela e nos perturba a noite e a existência; Jefferson Dias, seguindo a trilha de Augusto dos Anjos, ensaia ele mesmo exercer este papel, isto é, opta por ser o poeta-corvo, aquele que lança imprecações contra quem se aproximar de suas páginas.

GB: Freud e o poeta português Herberto Helder parecem influências decisivas para o livro de Jefferson, assim como Nietzsche e o próprio Augusto dos Anjos. O que, especificamente, de cada um deles, você destacaria como essencial para essa poesia?
W A-B: A certeza da morte, a parceria com a morte, o exercício da morte e, claro, a própria morte. O mal estar na cultura (1930), de Freud, se não está na origem, certamente dá lugar aos versos de Silenciosa Maneira. De toda forma, essa série de autores encena o mundo sem o divino; é destas águas envenenadas que sorve Jefferson. Evidentemente seria possível detalhar longamente, mas o fundamental é que é da constatação da finitude do corpo – com Freud e Nietzsche – que parte Jefferson. De Herberto Helder há a possibilidade do exercício sistemático do delírio, que se traduz em sua escrita através de imagens poéticas que são da ordem do nonsense: “Vede: é uma nuvem de saxofones / Na topografia dos pulmões.” Helder, mesmo que com uma incursão bastante poderosa no absurdo, não deixou de revisitar o tema do divino até seu último livro; em certo momento de Poemas canhotos (2015), o recém-lançado livro do poeta português, o leitor se depara com o seguinte verso: “ainsi soit-il, diz Nosso Senhor que anda a aprender a língua na Alliance Française”. De Augusto dos Anjos, além da dimensão corvídea, já aludida na resposta anterior, está todo um universo vocabular cientitificista: Dias refere-se a hálux, ossatura, carbúnculo etc, para repisar sua – a expressão é dele – “tautológica carne”.

GB: Pelas fortes imagens, pelo vocabulário menos fácil do que sugestivo, o livro de Jefferson parece falar de tensões e atuar a partir delas. Percebemos, em sua poesia, tensões entre materialidade e metafísica, entre festins e solidão, entre o poeta – esse ser dos paradoxos – e o poema – esta fantasmagoria –entre o eu e o outro. Pra você, seria esse espaço tensivo, dialético, que, antes de excluir põe em relação elementos em um primeiro momento totalmente inconciliáveis e contraditórios, um lugar de onde nos fala e a partir do qual se realizaria a poesia brasileira mais recente?
W A-B: Eu não me atreveria a falar da “poesia brasileira mais recente”. Brasil tem sido nos últimos tempos um país de mais poetas que leitores de poesia. Há uma pluralidade para poetas vates, surrealistas, sentimentais etc. Particularmente, a poesia que encena tensões em sua própria forma e que trabalha na produção de realidades, na exploração de territórios de sonho e pesadelo, me interessa muito mais. De Jefferson Dias, em particular, cabe dizer que vai urdindo sua poética de modo bastante pessoal e promissor.

  • Wilson Alves-Bezerra é escritor, crítico literário, tradutor e professor do Departamento de Letras da UFSCar, onde atua na graduação em Letras e na pós-graduação em Estudos de Literatura. Atualmente é Coordenador de Cultura da universidade. É doutor em literatura comparada pela UERJ, mestre em língua espanhola e literaturas espanhola e hispanoamericana pela USP. Tem um livro de contos – Histórias Zoófilas e outras atrocidades (EDUFSCar / Oitava Rima), e outro de poemas, Vertigens (Iluminuras, 2015). Traduziu dois romances de Luis Gusmán – Pele e Osso (2009) e Hotel Éden (2013), ambos pela Iluminuras; sua tradução de Pele e Osso foi finalista do Prêmio Jabuti 2010 na categoria Melhor tradução literária espanhol-português. Traduziu ainda três livros de contos de Horacio Quiroga: Contos da Selva (2007), Cartas de um caçador (2007) e Contos de amor de loucura e de morte (2014), todos pela Iluminuras. Como ensaísta, lançou Reverberações da fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/FAPESP, 2008) e Da Clínica do Desejo a sua escrita (Mercado de Letras/FAPESP, 2012). Como resenhista na área de literatura tem textos publicados nos suplementos literários dos jornais O Globo, O Estado de São Paulo, Zero Hora, Jornal do Brasil, além do mexicano El Universal.

[…] E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

(Edgar Allan Poe, O Corvo. Trad. Machado de Assis)

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Ilustração de Gustave Doré para “The Raven”

‘Silenciosa maneira’, de Jefferson Dias, será lançado em São Carlos com homenagem a Herberto Helder

11698678_626764177426810_7596125281760283051_n“Silenciosa maneira”, de Jefferson Dias, o terceiro livro da coleção Galo Branco, que está sendo publicada pela Editora Medita com recursos do ProAC, será lançado no próximo dia 19 de agosto, quarta-feira, no Teatro de Bolso da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), a partir das 17h.

Além do lançamento do livro, que estará sendo vendido no dia pelo valor de R$ 10,00, o evento terá um recital e uma homenagem ao poeta português Herberto Helder, importante influência para o livro de Jefferson Dias. Em Herberto Helder, Jefferson parece buscar o universo da mitologia edipiana e da imagem da mãe, que atravessa de forma mais expressiva a segunda parte de “Silenciosa Maneira”, sendo o poeta português citado literalmente em um dos poemas.

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Herberto Helder

Além de Herberto Helder, “Silenciosa maneira” traz ecos de Augusto dos Anjos, percebidos seja na expansão de imagens de dor, horror e morte, seja em um vocabulário que nos fala de cancro, mênstruo, esperma, leite, cuspe e gangrena, com um gosto pela anormalidade que se revela poética. Um livro inicialmente difícil e perturbador, nele sobretudo há tensões entre materialidade e metafísica, entre festins e solidão, entre o poeta – esse ser dos paradoxos – e o poema – esta fantasmagoria – entre o eu e o outro. Justamente é o poema outro grande personagem deste livro ensurdecedor em seu silêncio que combina momentos de sensualidade com lampejos espirituais, uma melancolia contínua e uma sutil reverberação da vida.

Jefferson Dias nasceu em Monte Sião, Minas Gerais, em 1990. Mudou-se bem logo para Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde reside até hoje. Concluiu no ano de 2014 o curso de Letras da Universidade Federal de São Carlos; debruçou-se, em seu trabalho de conclusão de curso, sobre a montagem do poema “Húmus” (1966), empreendida pelo poeta lusitano Herberto Helder, a partir do romance homônimo (1926) do também português Raul Brandão. Publicou, em 2013, pela editora Multifoco (Rio de Janeiro-RJ), o livro de poemas Último Festim. Em 2014 teve o poema “Dédalo” publicado na segunda edição da revista euOnça (editora Medita, Campinas-SP). Além de “Silenciosa maneira”, escreveu Qualquer Lugar (poesia, inédito) e Sonata do Diabo (romance, inédito). Mantém um site onde publica alguns de seus textos.

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Jefferson Dias

Financiada pelo Edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural “Concurso de Apoio a Projetos de Publicação de Livros – Coleção de Obras Inéditas – no Estado de São Paulo”, a coleção Galo Branco imprimirá, ao longo de 2015, 10.500 livros, divididos em 7 títulos inéditos. Os lançamentos serão realizados até dezembro em cinco cidades do interior do estado de São Paulo. São várias as vozes que compõem a polifonia dessa coleção: Pedro Spigolon, Sarah Valle, Augusto Meneghin, Ana Júlia Carvalheiro, Jefferson Dias, Anderson Kaltner e Danilo Carandina.

O lançamento tem entrada gratuita e é aberto ao público em geral. Os dois livros já lançados pela coleção Galo Branco, “Espanto”, de Pedro Spigolon, e “O Espelho d´água”, de Sarah Valle, também estarão à venda, os dois por R$ 15,00. Mais informações na página do evento no facebook.

Dizer o acaso – dizer a vida –, mas dizer.
Inventar os arranjos, dizer os rostos,
Fermentar os ossos do poema, revelá-los simples:

Toda a hipocondria – arranjo repleto geral,
Outro poema: cavalos quebrados –
E toda a ternura, a carne do gesto.

A cabeça da palavra: Herberto Helder
Qual uma península na dança.

[…]

(trecho do poema “Arranjos”, p. 37)

Coleção Galo Branco

3º canto: ‘Silenciosa maneira’, de Jefferson Dias, e a reflexão que integra vida e poesia

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Foto de Wladimir Vaz

Silenciosa maneira, de Jefferson Dias, é o terceiro canto que chega aos leitores por meio da coleção de obras inéditas Galo Branco, que está sendo publicada pela Editora Medita com financiamento do ProAC. Pela mesma coleção já foram lançados Espanto, de Pedro Spigolon, e O Espelho d’água, de Sarah Valle.

Como escreve Wilson Alves-Bezerra, professor de literatura da UFSCar, no prefácio do livro, “não é de silenciosa maneira que os poemas do segundo livro de Jefferson Dias chegam aos leitores”.

Construídos a partir de fortes imagens, com uma linguagem que combina um vocabulário erudito e palavras comuns, os poemas de Jefferson Dias transmitem logo de início a presença marcante de dois sentimentos que atravessam todo livro: o medo e a morte, ambos mutuamente alimentando uma certa atmosfera de melancolia sempre a fazer-se, na sua peculiar e silenciosa maneira. “Que o amor enleve a minha melancolia”, diz o primeiro verso do poema “Ressaibo”, revelando ao leitor um eu lírico recortado por uma tristeza vaga e constante, podendo ser arrebatada, quem sabe, pelo amor.

Insistentes no medo e em certo desamparo, ou inutilidade de tudo diante de uma impossibilidade de comunicação, dizem os versos do poema “Recidiva”:

Corre-me nas veias o leite do medo;
Não posso falar-te
E tu não me podes ouvir.

Ecos do poeta Augusto dos Anjos percebem-se por todo o livro, seja na expansão de imagens de dor, horror e morte, seja em um vocabulário que nos fala de cancro, mênstruo, esperma, leite, cuspe e gangrena, com um gosto pela anormalidade que se revela poética, tanto naquele poeta dos sonetos que eram subvertidos em sua rigidez de forma clássica pelo conteúdo, quanto neste poeta contemporâneo dos versos livres interessados mais “no anacrônico e no extemporâneo, do que no coloquial e no familiar”, como diz Wilson Alves-Bezerra. 

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Não há facilidade nesse livro inicialmente difícil e perturbador, “atrevido”, como bem apontou Wilson Alves-Bezerra, sobretudo há tensões entre materialidade e metafísica, entre festins e solidão, entre o poeta – esse ser dos paradoxos – e o poema – esta fantasmagoria – entre o eu e o outro. Justamente é o poema um grande personagem deste livro ensurdecedor em seu silêncio, objeto refletido em tantos momentos, de tantos versos.

No poema “Petição”, por exemplo, o medo percorre as imagens servindo como metáfora para o próprio poema.

Como quem mata ou alimenta.
Teu poema é o medo.
Tu te arrojas, cancro e sombra de felino –
Arrasadas as habitações no centro da noite,
Emudecidas as posses no comum da mudança –;
Teu poema mudara.

Teu poema era a novidade na dança da madeira;
O medo era o animal na tua resposta.

Alcançaste.

E tornarás a alcançar.

Um livro de momentos sensualmente corpóreos, como o destes três versos que iniciam a segunda parte do poema “Voz”,

O sexo macio e arrefecido pelo lado de dentro,
O pudor e a obscenidade metidos dentro
De uma porção apanhada e enrolada de cabelo feminino,

e também de lampejos espirituais como este que pousa generosamente na alma ao final do poema “Saudade”, preenchendo-a com uma suave tristeza, uma melancolia contínua que nos causa o tempo diante das inúteis e silenciosas maneiras que seguimos inventando para recompor as alegrias passadas.

Não há resposta útil. Mas uma tristeza suave.
E esta silenciosa maneira de recompor –
Sem êxito –
As alegrias empoadas
E de esperar insistindo, como houvesse alguém
Que nos queira ouvir.

A mesma melancolia continua a fazer-se nestes momentos de um lírico desamparo desdobrado em desencontros, que nos chega de forma tão próxima em versos como:

A poeira eterna dos nossos desencontros,
O silêncio inexpugnável das confissões
Que jamais levamos a efeito,
Pedaços de coisas inúteis metidos dentro
Nas gavetas impudentes,

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Jefferson Dias

Em dois movimentos parece fazer-se esse “Silenciosa maneira”. Se em um instante busca prolongar um pensamento que se debruça sobre a inutilidade da vida diante da morte, sobre um brutal desamparo do sujeito, uma aparente ausência de maiores sentidos, também reverbera resistências, insistências, deixando falar a própria vida que escapa, ainda que brevemente, por entre a “morte, rubra e dourada, (que) encrespa as duas margens”.

Neste sentido, é no mesmo poema, separados por poucos versos, que o poeta diz: “Há este desejo antediluviano e ciclópico de partir”; para logo em seguida, acrescentar: “Este desejo antediluviano e ciclópico de permanecer”. Não há como não pensar em Freud quando este diz ser a morte o destino de toda vida, e, ao mesmo tempo, pensar no caminho contrário, aquele que também percebe ser a vida o destino de toda morte. Tais intervalos entre partir e permanecer, tais hesitações e deslocamentos se tensionam seja neste livro de poemas de Jefferson, seja na própria existência, onde os instantes de fugaz alegria estão intercalados com aqueles outros, sempre constantes, de solidão.

Por isso, este livro, se esboça um elogio à metafísica

A ideia metafísica faz com que haja algo além
Do espaço e do tempo bestiais; o que torna as
Coisas mais difíceis aos seres racionais, mas também
Mais belas

também vai dizer,

Não há razão por detrás das estrelas,
Há apenas a vida
E a razão

complementando,

A vida é um acaso refugindo fundo:
Buscar e rebuscar um cancro para a cura.

deixando-nos impressa, por entre vermes, sangue e podridão, uma silenciosa promessa de beleza.